O que se perde sem se notar porque nunca desligamos

Tânia Brandão

Professora do ISPA – Instituto Universitário

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Há uma cena que quase toda a gente reconhece. Estamos em casa, com os filhos, e ao mesmo tempo não estamos. O corpo está, a atenção está algures entre uma mensagem ou email que chegou e outra(o) que ficou por enviar. Não é negligência. É o estado normal de quem vive com o trabalho no bolso, disponível a toda a hora.

O que é mais difícil de ver é o que se perde nesse estado. Não só para os filhos, também para nós. A ligação com os filhos não se constrói em momentos grandes. Constrói-se nas conversas sem assunto, nas perguntas repetidas que já não têm graça, no olhar que confirma que estamos ali. São momentos que parecem dispensáveis um a um e que, somados, são tudo. E são precisamente esses que a pressão de estar sempre ligado vai consumindo, de forma tão gradual que raramente damos conta da perda.

Os filhos dão. Não sempre com palavras, mas dão. A investigação mostra, por exemplo, que esta presença incompleta está associada a menos coesão familiar e a mais sintomas depressivos nos adolescentes. Mas o que a ciência mede com dificuldade é a outra metade da história: o que os pais sentem quando, mais tarde, percebem que estiveram presentes em tudo menos no que importava.

A questão é que desligar deixou de ser uma escolha simples. Para muitos, estar inacessível tem consequências reais, profissionais e até económicas. A disponibilidade permanente não é um hábito que se adquiriu por distração, é uma exigência que o mundo do trabalho foi normalizando sem grande debate. E enquanto essa conversa não acontecer, a solução continuará a ser empurrada para a responsabilidade individual de cada um, como se bastasse querer para conseguir estar presente.

Não há aqui culpa fácil. A fronteira entre trabalho e vida não desapareceu por descuido de ninguém, desapareceu porque o sistema assim funciona e poucos têm poder para resistir sozinhos. Mas talvez valha a pena nomear o que se está realmente a perder. Não para nos sentirmos piores. Para nos sentirmos mais atentos.

Nota. Este texto contou com apoio de uma ferramenta de inteligência artificial (Claude) para revisão linguística e melhoria de clareza. O conteúdo, a argumentação e a revisão final são da exclusiva responsabilidade da autora.

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