O Governo decidiu que o processo de verificação dos exames nacionais passaria a ser efectuado pelos professores classificadores de forma exclusivamente digital, sendo que, em particular quanto aos do corrente ano, todo o processo tem sido pautado pela polémica, sendo que a Missão Escola Pública foi fazendo sucessivos alertas desde Abril para os problemas que, desta nova forma de “gerir” a Educação, poderiam decorrer.Em primeiro lugar, os ditos exames continham uma forte componente de respostas pouco consistentes com a verdadeira aferição de conhecimento, mas muitíssimo mais aptas a serem verificadas por meios de Inteligência Artificial.Os professores foram instados a permanecer de pé, durante toda a vigilância, mais numa tarefa de segurança privada do que propriamente de docência.Sucede que, entretanto, verificou-se que um dos exercícios de uma das provas era uma cópia de um exercício prático de um manual de apoio de uma conhecida editora, pelo que os alunos que o haviam adquirido partiam em clara vantagem face aos demais. Depois, aparentemente terá havido uma fuga de informação quanto a outro exame. Entretanto, o processo de digitalização dos exames custou mais de sete milhões de euros em três anos, mas houve falhas desde o início, seja com o atraso no envio dos mesmos, seja essencialmente na plataforma electrónica criada para o efeito.A 26 de Junho, os professores classificadores continuavam sem receber qualquer exemplar que tivessem objecto de digitalização, o que originou que o Júri Nacional de Exames tivesse alargado o prazo para a entrega final para o dia 10 de Julho, quando antes previra uma distribuição faseada das provas, opção que teria permitido que os agrupamentos do Júri Nacional de Exames fossem recebendo as classificações de forma gradual, preparando os procedimentos necessários à divulgação atempada dos resultados.Este cenário pressupunha que os elementos começassem efectivamente a ser disponibilizados até ao dia 2 de Julho, o que, contudo, não sucedeu na íntegra.O sistema integrado causou vários erros, entre os quais avulta o facto de professores aposentados há mais de um ano terem sido convocados para classificar exames, docentes de Geografia foram convocados para classificar exames de Francês ou até outros que o foram para escolas onde já leccionaram, potenciando casos em que corrijam provas dos seus próprios actuais alunos.Os constrangimentos técnicos e informáticos persistem, sendo que os professores estão obrigados a recorrer à Chave Móvel Digital ou às credenciais da Autoridade Tributária para conseguirem desempenhar as funções inerentes ao exercício da sua profissão.Quando os exames nacionais finalmente chegaram, a confusão adensou-se.António Carlos Cortez, que tem denunciado a situação, reportou, há uns dias, os seguintes casos de colegas seus:"Passei de 36 para 162 respostas para classificar do exame de Português. Deparei-me com uma situação insólita: numa resposta ao Grupo III, falta a primeira folha e vem só a folha de continuação”"Literatura Portuguesa... classifiquei ontem 86 respostas. Qd atualizei, apareceram mais 2. Total 88. No entanto, as respostas já lá não estão. Quando os critérios de classificação definitivos forem divulgados, se houver alterações, onde estão as respostas?""O maior problema que deteto é a ausência de folhas de continuação, deixando raciocínios e frases a meio. Os professores classificadores já receiam de que em provas que não é tão facilmente detetável também possa acontecer, pois a própria estrutura da prova remete para uma continuação que não existe. Temos que estar sempre a reportar estes casos e pode haver situações em que isso aconteça e o professor não o consiga detetar, com grave prejuízo para os alunos. Esta situação já foi reportada mais que uma vez, sem obter esclarecimentos! Acresce que não cabe ao professor classificador averiguar se as folhas de continuação estão em falta ou não, fazemos o nosso trabalho o melhor que podemos, para o bem dos nossos alunos, sendo esta situação, no mínimo, deplorável.""Respostas de Matemática A sem a folha de continuação anexada. E agora, como classifico?"'Desde 2.ª feira tenho acesso a provas de Economia A. Ontem recebi nova tranche de provas na plataforma (quase duplicou) sem respeitar o planeamento do meu trabalho. HOJE (03/07) ainda não consegui entrar na plataforma – tem dado erro a manhã toda quando tento autenticar.""Não vou validar/submeter provas que não foram classificadas por mim.”“(Português) Tenho cento e tal itens para corrigir, mas o mais fantástico é que das 36 questões que tinha classificadas só me aparecem 16. As outras nem sei se desapareceram! Precisava de revê-las e nada!!!! Também recebi provas já classificadas.""Ao 3.º dia de classificação, entro na plataforma e está tudo vazio. Nada na supervisão e, quando clico nos itens de classificação, entro noutra página do IAVE, que simplesmente fica parada no ENTRAR. Não tenho qualquer item ou informação para trabalhar.""Exame de História A. O meu testemunho do que aconteceu às 10.30. Estava a classificar e, de repente, desapareceu tudo. Já não tenho itens. Espero que isto queira dizer que estão a pôr as folhas de continuação em falta."Tenho 58 provas classificadas, das quais 9 entretanto desapareceram. Tenho 8 provas sem folhas de continuação (as respostas estão incompletas). Situação reportada, mas sem resposta."(Testemunho de classificador dos Açores) "Uma semana depois do prazo previsto, as respostas aos itens continuam a não estar acessíveis para classificar. Agora, o prazo foi prolongado em três dias. Mas, a verdade é que o processo de classificação ainda não começou, em algumas disciplinas. É uma trapalhada de tal ordem que, se não fosse tão grave, seria uma anedota!""Sou professora classificadora da Prova de Física e Química A. Estou desde 01/07/2026 a tentar constantemente, aceder à plataforma, mas sem conseguir.'"Atribuíram-me 20 itens / composições do exame de Inglês para classificar, mas 8 estão claramente incompletos, pois as frases terminam a meio e não há folhas de continuação.""Continuo sem conseguir aceder à plataforma. Nas minhas relações próximas, ninguém conseguiu entrar. Todos estamos a tentar desde 25/06, dia previsto para se iniciar a classificação das provas de Biologia e Geologia.""1- Em 20 provas atribuídas, 6 carecem de folha de continuação.2- Sistemática impossibilidade de acesso a sala de supervisão, fóruns / mensagens, não obstante ter seguido os passos indicados várias vezes e usado diferentes motores de busca.'"A grande maioria das provas não têm folha de continuação, no item 2 grupo 2, embora se perceba que as respostas dos alunos continuam. No item 3 do grupo 4, uma prova não tem folha de continuação.""Sou classificador o exame de Filosofia. Ao entrar na plataforma, a página fica bloqueada e completamente branca.""Tenho mais 63 questões referentes a 2 itens diferentes do exame de Economia A. Já tinha classificado 83. Até quando vou continuar a receber questões para classificar?""No último lote recebido no dia 2 de Julho, tenho itens em que falta claramente a folha de continuação. Após horas de sucessivas alterações no número de itens, itens de outros classificadores a aparecerem na minha conta, o sistema parecia ter estabilizado. Na verdade, mantém-se este problema já reportado por muitos colegas e que, agora, também afeta os meus itens. Feedback sobre como proceder, nenhum.""Hoje, recebi os itens de História A para classificar. No entanto, em 13 respostas faltam as folhas de continuação.”Perante as constantes falhas, ainda não resolvidas, ninguém pode garantir neste momento sequer a veracidade e a segurança das correções, o que sucede num assunto tão relevante quanto o dos Exames Nacionais dos nossos jovens.Já não bastava o tipo de questões feitas, mais adequadas a serem respondidas por Inteligência Artificial do que destinadas a avaliar propriamente o conhecimento adquirido, já não bastava o dinheiro gasto em digitalizações e sistemas que não funcionam, os professores parecem transformados em meros autómatos, longe da sua tarefa essencial. Pedagogia é uma coisa. Ser transformado em parte de um algoritmo, cuja origem é desconhecida, é outra.Não espanta, portanto, que parte destes profissionais tivesse subscrito uma declaração de escusa de responsabilidade, perante a manifesta falta de condições para o exercício das suas tarefas.A verdade é que, a pretexto de eficiência o ME acabou com o saber acumulado dos profissionais do ministério e fez uma reforma ideológica, entregando o ensino à interesses financeiros das big tech e, ainda assim, o sistema não funciona.Um docente transformado em autómato não é, na realidade, um professor. Um povo sem educação é um povo fácil de dominar. Talvez valesse a pena pensar sobre todo este processo e se, por vezes, a dita evolução não representa antes um claro e inequívoco retrocesso.