Para onde quer que eu viaje, Portugal acaba sempre por me seguir. Aconteceu novamente, desta vez em Aix-en-Provence, no sul de França.Há três protagonistas nesta história: Henri de Toulouse-Lautrec, cujas pinturas e cartazes eternizaram o cabaré parisiense Moulin Rouge; a lendária bailarina Jane Avril; e a sua biógrafa, a correspondente britânica José Shercliff, que viveu mais de metade da vida em Lisboa antes de morrer em Cascais, em 1985, aos 83 anos.Uma exposição temporária no Museu Caumont apresenta os icónicos cartazes de Toulouse-Lautrec, refletindo a sua paixão pelo Moulin Rouge e pelas suas bailarinas. Entre todas, Jane Avril exercia um fascínio especial sobre o artista.Nascida Jeanne Beaudon, na pobreza, Avril tornou-se a principal bailarina do Moulin Rouge. O seu estilo singular distinguia-a das famosas intérpretes do cancan.O museu escolheu o cartaz Jane Avril aux Serpents para anunciar a exposição. A obra retrata a bailarina com um vestido preto adornado com um motivo de serpente, o corpo contorcido como uma cobra.Tal como Toulouse-Lautrec, também Shercliff, então correspondente em Paris do jornal britânico Daily Herald, ficou fascinada pela artista depois de a entrevistar. Em 1952, publicou a biografia Jane Avril of the Moulin Rouge, ilustrada com desenhos de Lautrec.. “Esta é a história de Jane Avril… filha de uma demi-mondaine e de um aristocrata italiano que, partindo de uma infância humilde e atormentada, dançou até alcançar a fama”, lê-se na badana do livro.Shercliff acabaria também por fazer parte da história de Lisboa durante o regime de Salazar. Trabalhou para o The Times de Londres, a BBC e a Associated Press, e a sua casa tornou-se ponto de encontro de figuras como Mário Soares e Paula Rego.Nascida Josephine, assinava os seus artigos como “José”, talvez por considerar que um nome masculino lhe facilitava a vida enquanto correspondente estrangeira.Ela era espirituosa e tinha uma técnica que faria Mata Hari dar voltas no túmulo.Um antigo colega recordava o seu “método dos alfinetes”. Sempre que tinha conhecimento de que um soldado português tinha sido ferido ou morto em Angola, Moçambique ou Guiné, espetava um alfinete no mapa correspondente ao local. Com o passar do tempo, esse mapa permitiu-lhe elaborar estimativas extraordinariamente precisas das baixas, que a Associated Press divulgava, para grande frustração das chefias militares portuguesas.Durante anos circularam rumores de que José seria agente britânica. Chegou mesmo a ser detida em Barcelona, sob suspeita de espionagem, durante a Guerra Civil Espanhola.Chegou a Lisboa em 1940 com a intenção de apanhar um navio para Nova Iorque e prosseguir a sua carreira no Daily Herald. Em vez disso, permaneceu numa cidade fervilhante de espiões aliados e do Eixo.A jovem, que passou dos elegantes salões do Moulin Rouge para os sombrios corredores dos gabinetes governamentais, permaneceu uma figura enigmática, revelando muito pouco sobre si própria, apesar de ter escrito a biografia de Jane Avril.Talvez venhamos a saber mais quando o livro sobre a sua vida, da autoria de Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira Rosa, for publicado no outono.T