O que o Japão nos ensina sobre IA e inverno demográfico

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a: 

Se quisermos antecipar de que forma a tecnologia poderá ajudar Portugal e outros países europeus a enfrentar o inverno demográfico que se fará sentir ao longo das próximas décadas, o Japão constitui um laboratório vivo a que devemos estar atentos.

Há mais de 30 anos que este país asiático convive com baixo crescimento económico, envelhecimento e, mais recentemente, uma diminuição acentuada da população. Em 2025, o Japão tinha pouco mais de 123 milhões de habitantes, cerca de três milhões a menos do que cinco anos antes. E cerca de 30% dos japoneses têm hoje 65 ou mais anos. O extraordinário é que esta contração demográfica não produziu o colapso económico que uma leitura meramente aritmética da relação entre população e riqueza poderia fazer prever. Produziu, isso sim, uma enorme pressão para que as empresas e as instituições aprendessem a funcionar com menos trabalhadores.

A robotização é uma parte desta resposta. O Japão percebeu mais cedo do que a generalidade das economias desenvolvidas que uma sociedade onde falta mão de obra tem de encontrar formas de aumentar a produtividade das pessoas que continuam a trabalhar. É aqui que a experiência japonesa se torna particularmente interessante para a Europa.

Temos tendência para imaginar a relação entre tecnologia e trabalho como um jogo de soma zero. Se entra uma máquina, sai uma pessoa. Se a Inteligência Artificial passar a desempenhar determinada função, haverá necessariamente menos um emprego. E se as máquinas conseguirem compensar a diminuição da população ativa europeia, talvez também precisemos de menos imigração. Mas não é necessariamente assim.

"Esta é talvez uma das principais lições do Japão para a Europa. A tecnologia não serve apenas para substituir trabalho humano. Pode também torná-lo mais produtivo e, até, mais 'humano'."
"Esta é talvez uma das principais lições do Japão para a Europa. A tecnologia não serve apenas para substituir trabalho humano. Pode também torná-lo mais produtivo e, até, mais 'humano'." FOTO: Franck Robichon / EPA

Um estudo sobre a utilização de robôs em lares de terceira idade japoneses chegou a uma conclusão diferente. A adoção de robôs foi acompanhada por um aumento do emprego e da retenção de trabalhadores. Algumas tarefas passaram para as máquinas, libertando os cuidadores para funções em que o contacto humano é mais importante. Ao mesmo tempo, aumentaram a produtividade e alguns indicadores de qualidade dos cuidados. Percebe-se porquê. Uma máquina pode aliviar o esforço físico de um cuidador, assegurar tarefas de monitorização ou executar trabalhos repetitivos. Isso não torna o cuidador dispensável. Permite-lhe dedicar mais tempo àquilo que uma máquina dificilmente substitui: ouvir, interpretar, tranquilizar, decidir e cuidar.

Esta é talvez uma das principais lições do Japão para a Europa. A tecnologia não serve apenas para substituir trabalho humano. Pode também torná-lo mais produtivo e, até, mais “humano”. E isso obriga-nos a olhar de maneira diferente para outro debate que está a dividir profundamente as sociedades europeias: a imigração.

Pensar que a Inteligência Artificial permitirá à Europa fechar as portas porque deixará de precisar de trabalhadores estrangeiros é uma ilusão. O envelhecimento está a agravar a falta de trabalhadores precisamente em áreas onde a substituição do homem pela máquina será mais difícil. Médicos, enfermeiros e cuidadores estão entre as profissões onde existem carências importantes na Europa. Colocar a tecnologia e a imigração em campos opostos é, por isso, um erro.

Uma Europa tecnologicamente mais avançada continuará a precisar de médicos, enfermeiros, cuidadores, engenheiros, investigadores, programadores e técnicos, até para conseguir tirar todo o partido da Inteligência Artificial. Precisará também de pessoas capazes de introduzir as novas tecnologias nas empresas e nos serviços públicos. A imigração poderá mudar de natureza. A discussão sobre as qualificações, a integração e as necessidades da economia tornar-se-á ainda mais importante. Mas dificilmente desaparecerá por causa da Inteligência Artificial.

Há aqui, aliás, uma ironia. Quanto mais envelhecidas forem as sociedades europeias, maior será a procura de alguns dos trabalhos que mais dificilmente poderemos entregar inteiramente às máquinas. Bill Gates chamou recentemente a atenção para esse limite. Num ensaio publicado em agosto, utilizou a expressão “human reserved” para designar atividades que as sociedades poderão querer preservar para as pessoas, mesmo quando a tecnologia for capaz de executar uma parte delas. Escolheu precisamente os cuidados de saúde como um dos exemplos.

Para Portugal e para a Europa, a resposta ao inverno demográfico terá de passar pelo aumento da produtividade, pela Inteligência Artificial e pela automação. Terá também de incluir políticas que tornem menos difícil ter filhos e uma política de imigração capaz de responder às necessidades que a nossa própria demografia já não consegue satisfazer.

A tecnologia poderá ajudar-nos a atravessar o inverno demográfico. Mas continuará a precisar de pessoas para o fazer.

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