O que é imoral não se desmoraliza

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O doutor em Estudos Estratégicos Internacionais Roberto Uebel previu, no DN, que o último vexame internacional do bolsonarismo, a escapada de Flávio Bolsonaro para os EUA para fugir do julgamento por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, precipitará o fim da seita de extrema-direita.

Artigos nacionais – na revista Veja, nos jornais Folha de S. Paulo e Zero Hora – e internacionais – no Deutsche Welle – defenderam mais ou menos a mesma tese: a cobardia do candidato desmoralizou, de vez, o bolsonarismo.

Pois aqui vai uma tese contrária: o que é imoral, por definição, não se desmoraliza.

Fosse o bolsonarismo desmoralizável e não teria resistido ao elogio a Brilhante Ustra, torturador da ditadura militar, durante a votação pelo impeachment da torturada Dilma Rousseff; ou ao “só não te violo porque você não merece” dito a uma deputada no Congresso; ou à comparação de negros e indígenas a animais. Pelo contrário, não só o protagonista dessas imoralidades, Jair Bolsonaro, não se desmoralizou, como foi eleito, depois de as cometer, presidente da República em 2018.

No exercício da Presidência, a banalização da morte e respetiva campanha contra vacinas na pandemia, o desmantelamento dos órgãos de proteção da Amazónia ou o uso da máquina do Estado para defender os filhos em casos de corrupção também não o desmoralizaram. Pelo contrário, o presidente Bolsonaro quase foi reeleito em 2022.

E nem o plano familiar de golpe de Estado, com direito a execução do presidente e do vice eleitos, nem a fuga para a Flórida após a eleição, nem o lóbi pela taxação de produtos brasileiros importados pelos EUA, que prejudicou tanto tantas empresas, feito pelo filho Eduardo Bolsonaro, desmoralizaram o clã. Pelo contrário, o outro filho, Flávio, chegou favorito à segunda volta de 2026.

Contribuiu para a tal tese da desmoralização do bolsonarismo defendida por aquele académico e aqueles artigos de jornal o isolamento a que Flávio foi votado pelo partido de todos os Bolsonaro, o PL.

O PL, porém, antes de abrigar os Bolsonaro, tinha um senador; hoje, graças a eles, tem 29, um recorde.

Também ajudou à tese a entrevista, dada mal Flávio aterrou em Miami, de Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, a dizer que deve concorrer ao Planalto em 2030.

Ora, todos os governadores de São Paulo têm historicamente duas coisas em comum: a primeira é acharem que, por governarem 21,6% da população e gerirem 31,5% do PIB nacional, são automaticamente presidenciáveis; a segunda é que, uma vez candidatos, perdem sempre, como perderam Orestes Quércia, Paulo Maluf, José Serra e Geraldo Alckmin, antes de Tarcísio.

Ou seja, sem o bolsonarismo, nem o PL, nem Tarcísio valem, por si só, quase nada do ponto de vista eleitoral.

Até porque, segundo um estudo do instituto Palver, os bolsonaristas online, esses sim uma massa com peso eleitoral, apoiaram não só a fuga, como a carta cómica de Flávio que se seguiu.

Não, os bolsonaristas não perdem a moral porque não se perde o que nunca se teve.