O que fica depois do chumbo?

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A reforma laboral, a mais ambiciosa das bandeiras reformistas agitadas pelo Governo de Luís Montenegro até agora, ruiu com estrondo no parlamento, num episódio recheado de drama, intriga e jogos de bastidores ao melhor estilo de uma bem temperada “vichyssoise” política.  

O revés aplicado pelo Chega em cima da votação, menos de 24 horas depois de o país ter visto o próprio Ventura apregoar “vitória” no hemiciclo, em sintonia com a ministra do Trabalho e a própria bancada do PSD, é, qualquer que seja o ângulo de leitura, uma derrota marcante para Luís Montenegro e fragiliza a imagem de um Governo que se esforça no(s) discurso(s) por fazer passar a mensagem de ser o mais reformista desde Cavaco, na resposta aos críticos (externos e internos) que lhe apontam precisamente essa falha.

Mais do que uma derrota importante para o Governo, o chumbo do pacote laboral expõe as dificuldades reais na concretização de mudanças profundas dentro deste quadro parlamentar. E a forma teatral como se deu o chumbo na Assembleia da República, com o Chega a deixar o Governo pendurado à última hora, poderia servir como um momento de clarificação política para quem tem considerado viável governar tendo o partido de Ventura como aliado preferencial óbvio, ainda que não assumido.

Essa era uma das principais expectativas transportadas para o congresso que o PSD viveu este fim de semana em Sangalhos, na ressaca dessa derrota parlamentar. Que partido sairia deste congresso? Um PSD a insistir na mesma estratégia ou um que conclui que o Chega não é um parceiro confiável para as grandes reformas da governação?

Luís Montenegro e a maioria dos seus próximos jogaram a cartada das “forças de bloqueio” e insistiram na narrativa de equidistância entre PS e Chega. Formalmente, isso pode até ser verdade, mas politicamente a realidade tem sido bem diferente. Depois do Orçamento do Estado, viabilizado pelo PS, a verdade é que nos últimos meses as principais iniciativas legislativas do Governo foram negociadas e aprovadas com o apoio do Chega, desde a imigração à nacionalidade (com exceção, talvez, da reforma do Tribunal de Contas, aprovada com os socialistas). A tentativa de reforma laboral revelou, contudo, os limites dessa estratégia, num episódio que fragilizou a credibilidade negocial do Governo.

A metáfora utilizada por Rui Tavares, do Livre, na reação ao chumbo do pacote laboral, ajuda a compreender o problema. O Chega comportou-se como o escorpião da fábula e acabou por picar quem confiou nele porque essa é parte da sua natureza política. É por isso que o verdadeiro debate vai bem além da reforma laboral e projeta-se sobre a governabilidade. Um partido que molda as suas posições em função das sondagens, das redes sociais ou da conveniência do momento pode ser um aliado circunstancial, mas dificilmente poderá ser visto como um parceiro fiável para reformas estruturais. Montenegro já experimentou esse veneno. Arriscará uma segunda dose?

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