Em 1951, Hannah Arendt publicou As Origens do Totalitarismo, um livro escrito por quem fugira duas vezes e perdera uma nacionalidade. Não é um livro sobre monstros. É um livro sobre condições. Arendt não explicou Hitler ou Estaline pela maldade singular de dois homens, mas pelo terreno que os tornou possíveis: o desenraizamento das massas, o desprezo pelas instituições, a solidão organizada, a política transformada em movimento permanente.
Setenta e cinco anos depois, a pergunta impõe-se com alguma inquietação. O que veria ela hoje, se abrisse um jornal ou desbloqueasse um telemóvel?
Veria, em primeiro lugar, a erosão da fronteira entre facto e opinião. Arendt escreveu que o súbdito ideal do regime totalitário não é o nazi ou o comunista convicto, mas aquele para quem a distinção entre facto e ficção, entre verdadeiro e falso, deixou de existir. Não é preciso um regime totalitário para produzir esse súbdito. Basta um ecossistema informativo em que tudo é narrativa, em que a mentira não é desmentida, mas apenas contraposta a outra mentira, e em que o cansaço substitui o juízo. As redes sociais cumprem hoje, com eficácia industrial, a função que ela atribuía à propaganda: não convencer, mas desorientar. Em Verdade e Política, avisava que a mentira sistemática não pretende que acreditemos numa falsidade, mas destruir o sentido que nos permite orientar no mundo real.
Veria, em segundo lugar, a velha aliança entre as massas e a elite, que descreveu com rara crueza. Uma parte das elites, entediada com a respeitabilidade, encontra prazer em ver a plebe demolir as convenções que ela própria considera hipócritas. Hoje chamamos a isso “dizer as coisas como elas são”... Arendt chamar-lhe-ia outra coisa.
Veria, por fim, aquilo que em Eichmann em Jerusalém designou como banalidade do mal: não a ausência de maldade, mas a ausência de pensamento. O funcionário que cumpre, o eleitor que encolhe os ombros, o comentador que relativiza. O despudor coletivo não chega de uma vez. Instala-se por pequenas concessões,
cada uma razoável isoladamente, cada uma a tornar a seguinte mais fácil. O insulto passa a estilo, o ataque aos tribunais passa a frontalidade, a hostilidade às minorias passa a política de segurança.
Nada disto é totalitarismo e seria desonesto chamar-lhe assim. Arendt foi rigorosa na distinção entre tirania, autoritarismo e totalitarismo e esse rigor é parte da lição. Mas os seus livros não são apenas o relato de uma catástrofe. São um inventário dos sinais que a precederam, sinais que, na altura, eram igualmente fáceis de desvalorizar.
A democracia raramente morre de um golpe. Morre de hábito. Em A Condição Humana, Arendt lembrava que o poder nasce quando os homens agem em conjunto e se desvanece quando se dispersam. É talvez essa a advertência mais atual: não a de que o pior está a chegar, mas a de que só chega quando deixamos de nos encontrar para o impedir.
Pensar, para Arendt, era um ato político. Continua a ser o mais barato de todos. E o mais raro.