A interrupção do fornecimento de água no concelho de Almada demonstra o que acontece quando um país não cuida das suas infraestruturas essenciais. Não é um problema inesperado, nem uma fatalidade. É o resultado direto de décadas sem investimento consistente numa rede que deveria garantir a todos os habitantes acesso seguro e contínuo a água potável. Quando a manutenção é adiada, a renovação é ignorada e a gestão se limita ao imediato, o desfecho é inevitável.O que se passou na Costa de Caparica nos últimos dias é apenas mais um episódio de uma história longa. Durante décadas, várias freguesias do concelho enfrentaram falhas recorrentes no abastecimento, mesmo quando existiam fundos europeus disponíveis para modernizar a rede. Aparentemente, o problema não foi tratado como prioritário, nem foi realmente encarado como uma responsabilidade da câmara municipal. Inês de Medeiros, que lidera a autarquia de Almada desde 2017 e foi reeleita duas vezes, tornou-se o rosto atual desse estado de coisas. E é bastante revelador o facto de a autarca socialista atribuir as responsabilidades pelo sucedido ao comportamento dos munícipes, ao afluxo de turistas ou às puxadas ilegais, deixando de fora a responsabilidade da própria câmara no estado de degradação da rede.. Mas há uma questão mais profunda, que não pode ser ignorada. Se ao longo de mais de 40 anos os Executivos de Almada não resolveram a degradação da rede pública de abastecimento, por que é que os eleitores aceitaram este estado de coisas? Esta pergunta é central, porque remete para o papel que os cidadãos devem desempenhar numa democracia.Há dois aspetos essenciais. O primeiro é que todos somos responsáveis pelas escolhas que fazemos. O dever cívico não se esgota no ato de votar; cumpre-se quando escolhemos, de forma informada e exigente, as pessoas que consideramos mais capazes de defender e promover o bem comum. O verdadeiro dever cívico é este – votar em consciência nas pessoas e nas ideias que consideramos serem as melhores para a nossa freguesia, o nosso concelho ou o nosso país.O segundo aspeto diz respeito à própria natureza da democracia. Ao contrário do que por vezes se afirma, a democracia não é o melhor sistema político porque garanta governações mais eficientes ou mais competentes. A história recente de países como Singapura mostra que alguns despotismos iluminados podem, em certos domínios, ser mais eficazes do que a melhor das democracias. A razão pela qual a democracia é superior e preferível a qualquer outro modelo conhecido é outra: é o único sistema que permite a transferência pacífica e regular do poder entre projetos políticos distintos, preservando liberdades fundamentais, como a segurança de pessoas e bens, a liberdade de expressão, a separação de poderes, a presunção de inocência e o direito a um julgamento justo.."A competência e a boa governação não estão garantidas pelo sistema democrático: dependem apenas das nossas escolhas. Se estas forem de má qualidade, a governação será má e o próprio sistema estará em risco.”.A competência, a eficiência e a boa governação não estão garantidas pelo sistema democrático; dependem exclusivamente de nós e das escolhas que fazemos. E se estas escolhas forem de má qualidade, o próprio sistema democrático estará em perigo, com consequências que a História ensina, podendo tornar-se refém do populismo, da demagogia e, por fim, convertendo-se em tirania.O que não podemos esquecer é que a qualidade da governação é sempre o reflexo da qualidade das nossas escolhas como cidadãos. É aí que tudo começa – e é aí que tudo pode mudar.