O Livre decidiu dizer em voz alta aquilo que já insinuava há algum tempo: quer ser Governo. No congresso desta semana, Jorge Pinto afirmou que o partido ambiciona chegar ao poder e que a sua colega porta-voz Isabel Mendes Lopes será, um dia, ministra. Não foi apenas entusiasmo de palco, mas sim uma afirmação calculada, feita num momento em que o partido cresce nas sondagens (5,8% no mais recente barómetro DN/Aximage) e tenta ocupar um espaço político que a esquerda tradicional deixou por explorar.O Livre tem procurado distinguir-se do Bloco e do PCP com uma matriz menos rígida, mais europeísta, aberta ao diálogo e moderada. Essa identidade tem-lhe permitido captar eleitores urbanos que não se revêm na ortodoxia da esquerda clássica, mas que também não se sentem confortáveis com a hegemonia da direita, que influencia também o PS. É um partido pequeno, mas com uma ambição que já não cabe no seu tamanho.. De resto, estas declarações surgem numa altura em que o PS de José Luís Carneiro lidera as sondagens (com 29,3% no DN/Aximage de junho), embora longe de qualquer maioria absoluta. Os nossos barómetros mostram um movimento claro: eleitores do centro e centro-direita, desiludidos com o Governo da AD, estão a deslocar-se para o PS. É esse fluxo que explica a recuperação socialista. Não é a esquerda que está a regressar ao PS (muito do antigo voto de protesto que existia à esquerda está hoje no campo do Chega), mas antes o centro que está a fugir da AD.O Livre descarta alianças pré-eleitorais com o PS, mas admite entendimentos depois das eleições. E aqui começam os problemas estratégicos. Se a tendência das sondagens se mantiver, um acordo para viabilizar um governo minoritário do PS teria riscos evidentes. Apesar de ser uma esquerda europeísta e com pontos de contacto com o PS, o Livre continua a ser percebido como uma força identitária. Uma espécie de geringonça 2.0, agora com o Livre, poderia afastar precisamente aqueles eleitores moderados que estão a sustentar a subida socialista. São eles que estão a abandonar a AD e que poderiam recuar perante a ideia de um novo arranjo do PS com a sua esquerda.Há ainda outro fator que não pode ser ignorado. A manter-se a atual tendência nas sondagens até à data das próximas eleições – sejam elas antecipadas ou no final da legislatura –, não é descabido um cenário em que o PS vença sem maioria e o PSD fique em terceiro lugar, atrás do Chega.Isso abriria uma convulsão interna de grandes proporções no PSD. A liderança laranja seria fortemente pressionada para ajudar a derrubar um governo minoritário socialista logo à nascença e avançar para uma solução com o Chega, replicando o que aconteceu em 2015, quando António Costa derrubou Passos Coelho. A questão decisiva seria saber que PSD teríamos nesse momento. Um PSD disposto a viabilizar um governo minoritário do PS para evitar o Chega, ou um PSD empurrado para uma solução à direita. Na primeira opção, o PS não precisaria do Livre como parceiro, bastando-lhe gerir as circunstâncias e entender-se com quem precisa, à semelhança do que tem feito Montenegro, entre os socialistas e o Chega. E isto, mesmo que o entendimento com o Livre garantisse uma maioria parlamentar, algo que, de momento, está longe de ser dado adquirido.."Apesar de ser uma esquerda europeísta e com pontos de contacto com o PS, o Livre continua a ser visto como uma força identitária. Uma geringonça 2.0 afastaria parte dos eleitores que sustentam a recente subida do PS.”.Já na segunda opção, em que PSD e Chega unissem forças, o PS não precisaria da aliança com o Livre, porque não teria hipóteses de chegar ao Governo. O Livre quer ser poder, mas temos um PS que cresce graças ao centro, um PSD à beira de uma crise existencial e um Chega que condiciona todo o equilíbrio de forças no Parlamento. E para os dois partidos do “centrão”, PSD e PS, isto é um dilema estratégico: como governar sem perder o centro e sem abrir caminho a uma convulsão à direita.