Concretize-se ou não a mediação paquistanesa entre os Estados Unidos e o Irão, só o facto de o primeiro-ministro Shehbaz Sharif dizer que Islamabad pode ser o local onde se negociaria o eventual fim da guerra mostra o desejo de protagonismo mundial de uma potência que tem condições para ser uma voz ouvida. É evidente que o Paquistão não é um país qualquer, basta pensar que é, desde 1998, uma das nove potências nucleares, mas a sua importância nas relações internacionais vem também de ser o quinto país mais populoso do mundo e o herdeiro assumido da Civilização Mogol, produto da dinastia que entre os séculos XVI e XIX governou a Índia histórica, ou seja um espaço cultural que abrange desde as fronteiras afegano-paquistanesas até ao Bangladesh. O facto de a língua oficial, aquela que pretende cimentar desde 1947 a união entre penjabis, pastunes, sindhis, baluchis e outros, ser o urdu é a mais que evidente prova da reivindicação dessa ligação, tal como o é a arquitetura mogol de Lahore, uma das grandes cidades paquistanesas.A possibilidade de o Paquistão ter um papel na procura de um fim para a atual guerra no Médio Oriente decorre também da tradicional aliança com os Estados Unidos, que vem da Guerra Fria e, apesar de altos e baixos, tem momentos passados de grande proximidade, como o apoio aos mujahedins contra os soviéticos no Afeganistão e depois na campanha dos americanos contra as bases da Al-Qaeda também no vizinho Afeganistão, a seguir aos atentados do 11 de Setembro. Há poucos meses, os Estados Unidos mostraram a sua influência junto de Islamabad ao convencerem a liderança paquistanesa a negociar com a Índia o fim de uma escalada militar que poderia conduzir a uma nova guerra entre os irmãos-inimigos, separados desde 1947..Quando Donald Trump reivindica ter ajudado à paz em vários conflitos, este entre Paquistão e Índia é um dos de que está a falar.Também com o Irão há pontes importantes, mesmo que o Paquistão seja um aliado da Arábia Saudita. Os dois países têm vários interesses em comum, como combater o separatismo baluchi de um lado e do outro da fronteira, e é relevante salientar que apesar de ser um país de maioria muçulmana sunita, o Paquistão tem a segunda maior comunidade xiita a seguir ao Irão.A vontade de protagonismo do Paquistão acontece numa altura em que está praticamente em guerra com o Afeganistão, acusando Cabul, onde de novo governam os talibãs, de dar abrigo aos grupos de talibãs paquistaneses que usam o terrorismo para desestabilizar o país. Uma situação delicada na fronteira ocidental quando, há quase oito décadas, continuam por resolver os diferendos na fronteira oriental. Foram três as guerras indo-paquistanesas até hoje, numa contagem que não abrange certos momentos de grande tensão e até confronto armado como o de 1999 ou o já referido, que aconteceu no ano passado. Caxemira é grande foco de disputa, pois se a Índia, de maioria hindu, mas que faz da pluralidade bandeira , não abdica do único estado de maioria muçulmana, o Paquistão, nascido para ser uma pátria dos muçulmanos da Ásia do Sul, tem no seu próprio nome referência a essa região.A partição da Índia pelos britânicos no momento da descolonização aconteceu, fará em 2027, oito décadas. A morte pouco depois da independência do pai fundador, Mohammed Ali Jinnah, prejudicou muito a evolução do Paquistão, que também perdeu em 1971 a parte oriental, hoje Bangladesh. Ao contrário da Índia, em que os militares se mantiveram nos quartéis respeitando a democracia e o poder civil, no Paquistão os generais sempre foram poderosos, por largos períodos alguns deles até foram presidentes, complicando o jogo democrático. Também a força das dinastias políticas é imensa no Paquistão, ou não fosse o atual primeiro-ministro irmão de um anterior e o presidente Asif Ali Zardari o viúvo da antiga primeira-ministra Benazir Bhutto. Note-se que isto de partidos políticos ligados a família é um fenómeno comum a toda a Ásia do Sul, como o caso bem conhecido dos Nehru-Gandhi na Índia.."Aliado dos Estados Unidos, e próximo de uma China que pressiona para que a paz regresse ao Médio Oriente, o Paquistão pode dar um contributo para sentar americanos e iranianos à mesa, mas igualmente deve aproveitar para pensar bem o seu lugar no mundo.”.São muitos os desafios para o Paquistão, e não se resolverão por emergir como mediador ou sede de negociações de paz, mas a busca de protagonismo internacional põe os holofotes no país e pode ter impacto na sua própria avaliação do percurso a seguir. Resolver o diferendo com o Afeganistão é importante, mas sobretudo uma verdadeira negociação para normalizar relações com a Índia assume uma relevância extrema para o desenvolvimento de um país de cerca de 250 milhões de pessoas, que tem uma diáspora considerável mundo fora, o que traz vantagens em termos de remessas, mas também precisa de reter gente jovem e educada para se modernizar, mesmo que Carachi, a grande metrópole portuária, seja já uma cidade com arranha-céus e com tradição cosmopolita. Um contexto permanente de quase-guerra não ajuda nada a essa necessidade de modernização, e é assustadora essa tensão quando o tal irmão-inimigo é também uma potência nuclear.Aliado dos Estados Unidos, e também próximo de uma China que pressiona para que a paz regresse ao Médio Oriente, o Paquistão pode vir a dar o seu contributo para fazer sentar um dia americanos e iranianos à mesa, mas igualmente deve aproveitar para pensar bem o seu lugar no mundo. O país pode fazer muito melhor no Índice de Desenvolvimento da ONU, que até foi criado pelo paquistanês Mahbub ul Haq.