Há números que merecem ser celebrados antes de lhes procurarmos defeitos. Os do INE desta semana são um bom exemplo. No segundo trimestre o desemprego caiu para 5,3%, mínimo desde 2011, e a população empregada chegou a 5,4 milhões, mais 150 mil do que há um ano. O PIB cresceu 2,5%.São bons números. E é por serem bons que a pergunta só chega depois. O que acontece a uma economia que cresceu acrescentando trabalhadores quando começa a ter menos trabalhadores para acrescentar?Já aqui defendi que o investimento é o principal determinante da competitividade. Os dados desta semana acrescentam um prazo: a margem que mais tem alimentado o crescimento - o aumento do emprego - está a esgotar-se.Uma economia cresce mobilizando mais trabalho e capital, ou retirando mais valor do que já utiliza. Portugal beneficiou da primeira. Não é dizer que todo o crescimento venha do emprego; é dizer que essa contribuição não se repete indefinidamente. Nenhuma economia acrescenta trabalhadores para sempre - Solow demonstrou-o em 1956 - e, esgotada essa margem, o crescimento depende do que cada trabalhador produz.Portugal aproxima-se desse limite. Em 2025, morreram mais 34.053 pessoas do que nasceram e a população só cresceu graças a um saldo migratório de 70.862, contra 371.277 em 2022 e 216.629 em 2024. Em três anos, encolheu para menos de um quinto. Parte dessa queda coincidiu com o apertar das regras de entrada desde 2024. Não basta para concluir que a descida é duradoura, mas permite mostrar o risco de assentar o emprego em fluxos que ninguém garante - e que, em parte, já não se quer garantir. E, por baixo deles, a OCDE projeta uma população em idade ativa em queda no longo prazo.A imigração vai continuar a ser indispensável. Mas o que acrescenta depende tanto de quem chega como do que cá encontra: do reconhecimento de habilitações, de um lado; dos empregos que a economia oferece, do outro.O que distingue esses empregos é a produtividade, e convém dizer o que a palavra mede, porque é aqui que o debate azeda. Não mede esforço, mede o valor que uma hora de trabalho gera - que depende das máquinas, do capital, da organização e da gestão disponíveis.Segundo estimativas preliminares da OCDE, Portugal esteve em 2025 no pequeno grupo de países onde a produtividade por hora estagnou ou recuou, num ano em que cresceu 1,4% na UE. O emprego subiu; o valor de cada hora, praticamente não. E o nível vem de trás: 17% abaixo da média da OCDE. A mesma análise aponta a escala como parte da explicação - cerca de 40% do emprego empresarial está em microempresas, onde o subinvestimento em tecnologia e as fragilidades de gestão são mais frequentes.Também não basta responder “qualificações”. Só no último ano, o emprego com ensino superior cresceu 5,3%, e o atraso continua onde estava. O problema não é formar; é o que se faz com quem já formámos. Um engenheiro não se torna produtivo pelo diploma, mas por trabalhar onde há capital e mercados que transformem o que sabe em valor - e isso é meio caminho andado para escolher outra geografia para trabalhar.O diagnóstico é do próprio Governo. O Ministério do Trabalho reconheceu que a produtividade por hora está 28% abaixo da média europeia e defendeu a transição de um modelo focado exclusivamente em incentivos fiscais para outro que os concilie com ganhos reais de produtividade. Um benefício fiscal reduz um custo; investimento, tecnologia, escala e gestão alteram a capacidade de produzir. O primeiro melhora a conta de exploração de um ano. Os outros decidem o que a empresa criará nos seguintes.É por isso que a despesa fiscal importa. Em 2024 chegou a 20.395 milhões, 7,2% do PIB e cerca de 30% da receita fiscal. A Unidade Técnica de Avaliação de Políticas Tributárias e Aduaneiras considera urgente uma reforma global e estima que rever vinte benefícios pouparia até 1.763 milhões. Reconheço a importância dos incentivos fiscais. Mas cada euro a que o Estado renuncia deve ter melhor justificação económica do que baixar um custo.Daqui a três anos, Portugal estará a produzir mais valor por hora, ou terá continuado a somar pessoas a uma base produtiva que não mudou? A prioridade tem de ser o investimento produtivo - público, quando melhora infraestruturas e serviços; privado, quando traz tecnologia, escala e melhor gestão. Concorrência, qualificações e estabilidade regulatória multiplicam o retorno desse investimento. Nada disto rende manchetes, e tudo exige o que a política mais dificilmente garante: continuidade entre governos.Portugal conseguiu o que durante muito tempo pareceu impossível: desemprego em mínimos históricos e emprego em máximos da série. É uma conquista coletiva. Mas cada sucesso elimina uma desculpa. Com 5,4 milhões de pessoas empregadas, já não é possível atribuir o crescimento insuficiente à falta de trabalhadores.O próximo salto de rendimento não virá de encontrar trabalhadores. Virá de fazer valer mais cada hora das que já trabalhamos.