A base da vida parece ser a procura de conforto. Fugimos do descontentamento, do incómodo. Mas a possibilidade de nos desenvolvermos, enquanto sociedade, passa por conseguir agir no desconforto.
A ação não nasce no vazio. Ela nasce das dificuldades, das condições adversas que enfrentamos e da capacidade de cada um, seja de agir diante do que se passa consigo ou com outro.
O desenvolvimento de uma economia depende da forma como o desconforto consegue ser transformado em ações concretas. Não apenas com contestação ou crítica, mas através de propostas efetivas de mudança.
Mas há sempre quem não escolha o desconforto. É mais confortável nada fazer. Permanece na mesma situação não por satisfação, mas por não conhecer um horizonte para além do seu dia a dia. A falta de comparação e de perspetiva cria mecanismos que nos fazem aceitar as condições que temos sem questionar, como se a vida de cada um já estivesse escrita, predestinada.
Há também quem nasça com condições, ferramentas e estruturas para que a sua voz e as suas ações possam transformar a vida em tantas dimensões.
No mundo atual é fundamental aprender e impulsionar a vivência saudável com o desconforto. O desconforto não deve ser percepcionado apenas para aqueles que menos têm. Na realidade o desconforto deveria ser algo ensinado em todas as escolas de gestão para que os gestores pudessem pensar mais além.
Se o desconforto é o que nos leva a agir, então deveria estar presente nas posições de liderança nas empresas e na política. No contexto atual de mudanças estruturais no mundo, precisamos que quem tenha poder se sinta desconfortável para poder fazer melhor.
O empreendedorismo pode ser visto como uma forma de gerir o desconforto: criar algo para resolver um problema, criar algo para promover a mudança.
Entre tantas discussões e teorias sobre sustentabilidade, compreender a importância dos desconforto é fundamental.
Enquanto os indicadores de desenvolvimento humano no Sul Global não refletirem condições suficientes para que as pessoas tenham uma vida digna, não há espaço para descanso. É preciso que exista um desconforto capaz de impulsionar as nossas ações para promover o desenvolvimento daqueles que, estando longe de nós, permitem a qualidade das nossas vidas no Norte Global.
Em 2025, cerca de 645 milhões de pessoas enfrentavam a fome; 3,4 mil milhões não tinham acesso a saneamento gerido de forma segura; 273 milhões de crianças e jovens estavam fora da escola; e 3,4 mil milhões de pessoas não tinham acesso a uma habitação adequada. Num cenário destes, não há espaço para falar em conforto pleno.
As oportunidades económicas para o Norte Global passam pela possibilidade de compreender outras realidades, encontrar soluções que fazem sentido a longo prazo. Pensar apenas no lucro a curto prazo inviabiliza a continuidade da espécie humana no planeta. O empreendedorismo defendido por Adam Smith poderá fazer parte da solução.