O primeiro-ministro no seu labirinto

Rui Frias

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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A declaração de Luís Montenegro ao país na última quinta-feira, em pleno horário nobre televisivo, mostrou-nos um primeiro-ministro preso no seu labirinto. Perante um cerco que se vai apertando por todos os lados, emparedado entre o custo de vida, as contas públicas, a pressão interna por reformas estruturais e sondagens cada vez mais negativas, Montenegro jogou a cartada da responsabilidade e agitou fantasmas do passado – das “borlas” de Sócrates, que precipitaram a chamada da troika no auge da crise de 2011, até à austeridade que Passos Coelho implementou e que, assegura, se recusará a replicar.

O Governo respondeu à pressão sobre o rendimento das famílias com um pacote de cerca de 800 milhões de euros, combinando uma redução do IRS para a classe média e um suplemento extraordinário para pensionistas, além das medidas dirigidas aos setores mais atingidos pela subida dos combustíveis. Mas mantém a recusa de baixar o IVA dos alimentos ou da gasolina e do diesel, invocando a necessidade de preservar a sustentabilidade das contas públicas e evitar o regresso aos défices, como reforçou este domingo o ministro das Finanças.

É um facto que uma resposta demasiado “ousada” hoje pode significar um apertar do cinto amanhã, sobretudo num país vulnerável a uma crise económica internacional e ao aumento dos custos energéticos. Mas há também um lado político nesta equação, e é aqui que começa o verdadeiro dilema de Montenegro: uma explicação sobre sustentabilidade orçamental é bem menos percetível do que o preço da gasolina, do gasóleo ou dos alimentos com que nos defrontamos todos os dias e que vão ajudando a decidir as intenções de voto expressas nas sondagens que têm castigado o Governo.

Ao mesmo tempo, tem Passos Coelho a fazer o papel do “grilo falante”, uma voz que “teima” em não se calar, constantemente a pedir reformas, produtividade, ação, numa altura em que o Diabo (uma nova crise global) pode mesmo estar aí ao virar da esquina.

Enquanto isso, a ação do Governo parece resumida a uma gestão de danos: responde à oposição sobre os combustíveis, às sucessivas polémicas sobre os ministros, às críticas internas, às sondagens, enfim, passa demasiado tempo a explicar o que não pode fazer e pouco tempo a mostrar o que quer fazer.

A saída deste labirinto exigirá mais do que isso. Passará por recuperar a iniciativa política, voltar a definir os termos do debate, recuperar espaço político entre PS e Chega.

No fundo, o Governo precisa de uma nova narrativa mobilizadora, de uma agenda clara que possa inspirar confiança e esperança para o que resta da legislatura, sem descurar os problemas reais do dia a dia. E, para isso, não basta Montenegro dizer que não vai ser “o pai da austeridade”, nem “reeditar tragédias” do passado. É curto.

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