O primeiro-ministro na terceira pessoa

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a: 

A comunicação ao país do primeiro-ministro Luís Montenegro foi uma oportunidade perdida para demonstrar capacidade de liderança, acalmar os ânimos na sociedade portuguesa e mitigar um ambiente de crispação que apenas beneficia os extremistas dos dois polos ideológicos que, em Portugal e na Europa, se esforçam afincadamente por diluir os moderados.

Falando sobre si na terceira pessoa do singular, ao estilo de Júlio César e de Eusébio, o primeiro-ministro falhou ainda em perceber que o grande tema do momento já não é a crise da habitação – que não foi criada por este Governo e cuja resolução, como bem disse, demorará anos –, mas antes a legitimidade das intervenções policiais contra protestos pacíficos em Lisboa e no Porto, e da brutalidade exercida sobre dezenas de pessoas desarmadas, incluindo, pelo menos, um jornalista que estava apenas a fazer o seu trabalho.

"A comunicação ao país do primeiro-ministro Luís Montenegro foi uma oportunidade perdida para demonstrar capacidade de liderança, acalmar os ânimos na sociedade portuguesa e mitigar um ambiente de crispação (...)."
"A comunicação ao país do primeiro-ministro Luís Montenegro foi uma oportunidade perdida para demonstrar capacidade de liderança, acalmar os ânimos na sociedade portuguesa e mitigar um ambiente de crispação (...)." FOTO: Manuel de Almeida / Lusa

Montenegro deveria ter saído da sua aparente torre de marfim e aproveitado esta última oportunidade para demonstrar empatia perante as pessoas afetadas pela crise da habitação e dizer que aquilo que aconteceu no Rossio e na Praça D. João I foram situações que dificilmente se irão repetir. Que as considera justificadas, sim senhor, porque era necessário repor a lei naquele contexto, mas que, tendo em conta a recente decisão judicial que deu razão a uma ativista, o Executivo daria instruções à PSP para permitir as acampadas, dentro de determinado enquadramento, e evitar ao máximo o recurso à força, na condição de os protestos continuarem a ser pacíficos.

Porém, em vez de seguir por esse caminho, que lhe permitiria usar a decisão do tribunal para salvar a face do Governo, tanto para o eleitorado que defende a intervenção policial, como para os mais moderados, Luís Montenegro focou a sua intervenção nas medidas que o Governo está a implementar no domínio da habitação e na intenção de negociar com o Chega e o PS. Medidas essas que, por muito acertadas que sejam, demorarão anos a surtir efeito e que, para os manifestantes do Rossio, são como a água benta para os vampiros, ou, melhor dizendo, gasolina na fogueira. 

Temos assim um Governo cada vez mais fragilizado e acossado, pela direita, por um Ventura em pleno processo de “Melonização” e, pela esquerda, por um Carneiro nos antípodas de Pedro Nuno Santos e que, pouco a pouco, está a conseguir conquistar o eleitorado moderado que (ainda) decide eleições em Portugal. E com a agravante de o primeiro-ministro correr o risco de deixar transparecer que o Governo anda a reboque dos acontecimentos e da oposição.

Nesta conjuntura, o primeiro-ministro Luís Montenegro começa a ter pouco tempo para reverter o declínio do PSD nas sondagens a tempo das próximas legislativas e impedir o encolhimento estrutural do partido.

As declarações desta terça-feira não ajudaram a travar este processo, porque demonstraram uma perigosa incompreensão da realidade. Aliás, em toda esta história, o Governo revelou incapacidade de compreender o óbvio: a maioria dos manifestantes é pacífica, são pessoas normais que estudam e trabalham, e que se sentem legitimamente revoltadas com uma situação que as afeta gravemente.

O primeiro-ministro perdeu uma oportunidade única para demonstrar liderança e acalmar os ânimos. Está a ser acossado à direita por um Ventura em ‘Melonização’ e, à esquerda, por um Carneiro que, pouco a pouco, conquista o eleitorado moderado.”

Há, como em todos os protestos orgânicos, elementos radicais que se servem de uma causa legítima para tentar incendiar a sociedade. E o ministro da Administração Interna, com a sensibilidade e o tato que lhe são reconhecidos, ofereceu-lhes de bandeja o upside moral de que esses extremistas precisavam nos seus sonhos loucos de tentar transformar o centro de Lisboa nas ruas caóticas de Paris ou Lyon. Na verdade, muito provavelmente, não fossem as intervenções policiais e os protestos já teriam desvanecido com o frio que se começa a fazer sentir nas noites de novembro, à semelhança de outras acampadas do passado, de bombeiros e de outros manifestantes, onde a polícia foi muito mais compreensiva e não se atreveu a mostrar os bastões.

Nesse sentido, a decisão do tribunal poderá ser uma bênção para o Governo, se permitir que se salve de si próprio e da arrogância a que temos assistido nas últimas semanas. E se uma remodelação ministerial está, de facto, nos planos de Luís Montenegro, talvez já venha tarde.