A comunicação ao país do primeiro-ministro Luís Montenegro foi uma oportunidade perdida para demonstrar capacidade de liderança, acalmar os ânimos na sociedade portuguesa e mitigar um ambiente de crispação que apenas beneficia os extremistas dos dois polos ideológicos que, em Portugal e na Europa, se esforçam afincadamente por diluir os moderados.
Falando sobre si na terceira pessoa do singular, ao estilo de Júlio César e de Eusébio, o primeiro-ministro falhou ainda em perceber que o grande tema do momento já não é a crise da habitação – que não foi criada por este Governo e cuja resolução, como bem disse, demorará anos –, mas antes a legitimidade das intervenções policiais contra protestos pacíficos em Lisboa e no Porto, e da brutalidade exercida sobre dezenas de pessoas desarmadas, incluindo, pelo menos, um jornalista que estava apenas a fazer o seu trabalho.
Montenegro deveria ter saído da sua aparente torre de marfim e aproveitado esta última oportunidade para demonstrar empatia perante as pessoas afetadas pela crise da habitação e dizer que aquilo que aconteceu no Rossio e na Praça D. João I foram situações que dificilmente se irão repetir. Que as considera justificadas, sim senhor, porque era necessário repor a lei naquele contexto, mas que, tendo em conta a recente decisão judicial que deu razão a uma ativista, o Executivo daria instruções à PSP para permitir as acampadas, dentro de determinado enquadramento, e evitar ao máximo o recurso à força, na condição de os protestos continuarem a ser pacíficos.
Porém, em vez de seguir por esse caminho, que lhe permitiria usar a decisão do tribunal para salvar a face do Governo, tanto para o eleitorado que defende a intervenção policial, como para os mais moderados, Luís Montenegro focou a sua intervenção nas medidas que o Governo está a implementar no domínio da habitação e na intenção de negociar com o Chega e o PS. Medidas essas que, por muito acertadas que sejam, demorarão anos a surtir efeito e que, para os manifestantes do Rossio, são como a água benta para os vampiros, ou, melhor dizendo, gasolina na fogueira.
Temos assim um Governo cada vez mais fragilizado e acossado, pela direita, por um Ventura em pleno processo de “Melonização” e, pela esquerda, por um Carneiro nos antípodas de Pedro Nuno Santos e que, pouco a pouco, está a conseguir conquistar o eleitorado moderado que (ainda) decide eleições em Portugal. E com a agravante de o primeiro-ministro correr o risco de deixar transparecer que o Governo anda a reboque dos acontecimentos e da oposição.
Nesta conjuntura, o primeiro-ministro Luís Montenegro começa a ter pouco tempo para reverter o declínio do PSD nas sondagens a tempo das próximas legislativas e impedir o encolhimento estrutural do partido.
As declarações desta terça-feira não ajudaram a travar este processo, porque demonstraram uma perigosa incompreensão da realidade. Aliás, em toda esta história, o Governo revelou incapacidade de compreender o óbvio: a maioria dos manifestantes é pacífica, são pessoas normais que estudam e trabalham, e que se sentem legitimamente revoltadas com uma situação que as afeta gravemente.
Há, como em todos os protestos orgânicos, elementos radicais que se servem de uma causa legítima para tentar incendiar a sociedade. E o ministro da Administração Interna, com a sensibilidade e o tato que lhe são reconhecidos, ofereceu-lhes de bandeja o upside moral de que esses extremistas precisavam nos seus sonhos loucos de tentar transformar o centro de Lisboa nas ruas caóticas de Paris ou Lyon. Na verdade, muito provavelmente, não fossem as intervenções policiais e os protestos já teriam desvanecido com o frio que se começa a fazer sentir nas noites de novembro, à semelhança de outras acampadas do passado, de bombeiros e de outros manifestantes, onde a polícia foi muito mais compreensiva e não se atreveu a mostrar os bastões.
Nesse sentido, a decisão do tribunal poderá ser uma bênção para o Governo, se permitir que se salve de si próprio e da arrogância a que temos assistido nas últimas semanas. E se uma remodelação ministerial está, de facto, nos planos de Luís Montenegro, talvez já venha tarde.