Existe em Portugal uma convicção antiga, que atravessa partidos e gerações, e que nunca foi verdadeiramente confrontada com a realidade que produziu: o Estado é por definição mais justo do que o mercado, gerir mal com boas intenções é preferível a gerir bem com fins lucrativos e o lucro é em si mesmo uma forma de suspeita moral que contamina qualquer organização que o persiga. Esta convicção tem raízes numa tradição que desconfia da riqueza e vê o mercado como exploração, e numa herança política que foi substituindo a avaliação de resultados pela pureza declarada das intenções, tratando a prestação de contas como uma imposição ideológica em vez de uma condição básica de respeito pelos cidadãos que pagam.A realidade, porém, tem uma forma persistente de não se dobrar às crenças. O setor público empresarial português conta com mais de 300 entidades entre o Estado, as regiões autónomas e os municípios. É um universo que inclui hospitais e transportes, como seria de esperar, mas também empresas de produção de vinho, de cruzeiros, de caça e lazer florestal e de criação de cavalos, financiadas pelo mesmo contribuinte, sem que ninguém tenha estabelecido um critério claro sobre o que o Estado deve ou não deve fazer com o dinheiro de todos. O resultado financeiro deste conjunto é negativo de forma estrutural e persistente, com os custos a crescerem consistentemente mais depressa do que as receitas. Quando se confronta este desempenho com a convicção que o sustenta, a resposta é sempre a mesma: o problema é o subfinanciamento, nunca a gestão, nunca o modelo, nunca a decisão de manter aberto o que devia fechar.Esta lógica estende-se até à forma como o setor presta contas, ou melhor, não presta. Mais de metade das empresas públicas do Estado terminaram o ano passado sem ter os relatórios de contas do ano anterior aprovados pela tutela, o que significa que o próprio Estado, enquanto acionista, não sabe ao certo o que se passa em organizações que financia com dinheiro de todos. O ciclo recomeça sem que ninguém tenha sido chamado a explicar o que se passou no anterior, porque mesmo quando a informação existe, não produz avaliação, e mesmo quando há avaliação, não produz consequências. É o ambiente natural de um sistema construído para se perpetuar. O preço desta convicção é pago por cada contribuinte que financia, ano após ano, perdas que oficialmente não são de ninguém em particular, tomadas por pessoas imunes a qualquer avaliação, em organizações que nunca foram chamadas a justificar o que fizeram com o dinheiro de todos. Não há responsável, não há consequência, porque reconhecê-los implicaria admitir que o modelo falhou, e essa é precisamente a admissão que a convicção foi construída para tornar impossível. A solução não passa por destruir o setor público nem por privatizar tudo indiscriminadamente. Passa por fazer uma pergunta simples que este país sistematicamente recusa fazer: para que serve cada uma destas mais de 300 entidades, quem avalia se está a cumprir esse propósito e o que acontece quando não cumpre. É uma pergunta incómoda porque a resposta obrigaria a agir, e agir obrigaria a admitir que a convicção que durante décadas justificou este modelo estava, afinal, errada.