O poder que não responde

André Franqueira Rodrigues

Advogado, eurodeputado pelo PS e membro da Comissão de Defesa do Parlamento Europeu

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Há semanas em que o mundo cabe numa só pergunta. Esta foi uma delas: quem responde perante quem?

1. Em Nova Iorque, António Guterres despediu-se da Assembleia Geral da ONU. Dez anos depois, deixou um diagnóstico sem anestesia: guerra, direito internacional descartado, divisões geopolíticas mais fundas, confiança perdida. E uma síntese que devia ser lida em todas as capitais, sobre a história do poder. Quem o tem? A quem é negado? Como se usa?

Foi aplaudido de pé. Mas os aplausos não escondem o essencial. Xi Jinping não foi. Índia, África do Sul e Alemanha também não estiveram representadas pelos seus líderes máximos e, no decurso do seu mandato, Washington saiu de várias agências e cortou financiamento. A ONU de Guterres termina a pedir cooperação e apoio a quem já decidiu que não precisa dela.

2. No mesmo palco, Trump fez o de sempre. Acusou a ONU de servir uma agenda de burocratas globalistas e atacou o Tribunal Penal Internacional. À margem, depois de meses a cobiçar a Gronelândia, assinou um acordo de segurança com a Dinamarca e Nuuk. Primeiro a pressão. Depois o contrato. É assim que joga neste velho novo mundo.

A velha ordem não morreu num dia. Morre todos os dias. Cada tarifa usada como arma, cada Tratado ignorado, cada ameaça a um aliado é mais uma pá de terra no sistema nascido depois da II Guerra Mundial e que foi garante de paz e estabilidade.

O Canadá sabe-o melhor do que ninguém. Já não é o vizinho e parceiro. Passou a ser um alvo. Trump chama-lhe 51.º estado, impôs tarifas de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares em bens canadianos e as negociações colapsaram. Mark Carney não se ajoelhou. Pediu a Washington que deixasse os memes e as bravatas e voltasse à mesa com seriedade.

3. Há uma semana, em Estrasburgo, Carney falou ao Parlamento Europeu. Reforçou a sua proposta de uma aliança de potências médias. Não um novo império. Apenas uma frente forte o suficiente para que ninguém nos dite as escolhas. Já o dissera em Davos: quem não está à mesa, está no menu. O líder canadiano percebeu primeiro o que a Europa ainda hesita em assumir. A soberania já não se mede só em comida, energia e defesa. Mede-se em chips, dados, pagamentos, inteligência artificial. Ou a Europa constrói essa autonomia com parceiros fiáveis, ou negociará sempre em desvantagem.

4. Mas não há autonomia estratégica com democracias frágeis. Olhe-se para a Alemanha. A 6 de setembro, a AfD venceu na Saxónia-Anhalt com 43,8%. A 20, ganhou em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental com 37,9%, mais do dobro de há cinco anos. Em Berlim, venceu a esquerda radical do Die Linke. O centro e a responsabilidade esvazia-se em favor dos dois extremos. A Alemanha que foi o motor da Europa começa a falhar na ignição. O chanceler Merz falou de um veneno autoritário que se infiltra na sociedade. Tem razão. Mas o veneno não entra sozinho. Entra quando as instituições deixam de convencer. Quando a política deixa de explicar. Quando o poder deixa de prestar contas.

5. E é aqui que a conversa chega a Portugal. Na quinta-feira passada, o primeiro-ministro anunciou ao país um suplemento para pensionistas e alívio no IRS. Falou. Não aceitou perguntas. Não foi a primeira vez. O Sindicato dos Jornalistas pediu às redações que não enviem jornalistas a declarações sem perguntas. E lembrou que Salgueiro Maia, em pleno cerco ao Carmo, parou 14 minutos para responder à imprensa. Quando um sindicato apela ao boicote das declarações do chefe do Governo, alguma coisa falhou.

Dias depois, em Nova Iorque, Luís Montenegro respondeu aos jornalistas. Sobre o custo de vida. Sobre a economia. Em Manhattan, houve perguntas. Em São Bento, não. Dir-se-á que é um pormenor. Não é. A erosão democrática raramente começa com tanques. Começa com hábitos.

6. Guterres tem razão. É tudo a história do poder. E o poder, em democracia, tem uma obrigação simples: responder. Quem não aceita perguntas em casa perde autoridade para exigir respostas lá fora.

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