O peso invisível de decidir

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Nunca perdi o sono por causa de um contrato. Perdi-o pelas decisões que tive de tomar depois de o assinar.

Há um momento na vida de quem lidera em que decidir deixa de ser uma competência técnica e passa a ser um exercício de consciência. Não acontece quando assumimos um cargo de direção ou quando fechamos um grande negócio. Acontece quando percebemos que uma decisão tomada em poucos minutos pode alterar o futuro de colaboradores, famílias, clientes e comunidades inteiras.

É nesse momento que a liderança deixa de ser uma função. Torna-se uma responsabilidade.

Vivemos uma das épocas mais extraordinárias da História. Nunca tivemos tanto acesso a informação, nem ferramentas tão sofisticadas para apoiar decisões. A Inteligência Artificial analisa milhões de dados em segundos, identifica padrões invisíveis ao olhar humano e reduz significativamente a incerteza.

Apesar disso, os maiores desafios das organizações continuam a ser profundamente humanos.

O 28.º Global CEO Survey da PwC, realizado junto de 4701 líderes empresariais em 109 países, revela que 42% dos CEO acreditam que as suas empresas deixarão de ser economicamente viáveis na próxima década se mantiverem o atual modelo de negócio. O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Económico Mundial, estima que 39% das competências essenciais dos trabalhadores serão transformadas até 2030. Nunca decidir foi tão complexo. Nem tão exigente.

Mas existe um paradoxo.

Quanto mais informação acumulamos, mais percebemos que decidir nunca foi apenas um problema de conhecimento. É um problema de responsabilidade.

Vivemos rodeados de métricas. Medimos produtividade, crescimento, EBITDA, inovação, emissões de carbono, satisfação dos clientes e reputação. Nunca soubemos medir tantas coisas. Paradoxalmente, continuamos sem conseguir medir aquela que talvez seja a variável mais determinante de todas: a qualidade das decisões humanas.

Nenhuma folha de cálculo mede a confiança perdida por uma promessa incumprida. Nenhum algoritmo consegue quantificar o impacto humano de uma reestruturação. Nenhum relatório financeiro revela o peso que um líder transporta quando sabe que uma decisão correta para a organização pode ser profundamente difícil para as pessoas.

É precisamente aí que começa a verdadeira liderança.

O Edelman Trust Barometer demonstra, de forma consistente, que as empresas continuam entre as instituições em que os cidadãos mais confiam. Essa confiança não nasce dos discursos, nem das campanhas de comunicação. Constrói-se na coerência entre aquilo que os líderes dizem e aquilo que decidem quando enfrentam escolhas para as quais não existe uma resposta perfeita.

Com o tempo, compreendemos que os dados respondem à pergunta: “O que é mais provável acontecer?”

A experiência obriga-nos a enfrentar outra, muito mais difícil: “O que devemos fazer?”

Talvez cada líder devesse reservar, pelo menos uma vez por ano, um momento para fazer o único balanço que nunca será auditado: o da própria consciência. Não para avaliar quanto criou, mas como criou. Não apenas os resultados, mas também as consequências das decisões que os tornaram possíveis.

Durante décadas competimos pela eficiência.

Depois aprendemos a competir pela inovação.

Estou convencido de que a próxima grande vantagem competitiva será outra. A qualidade das decisões.

Porque a tecnologia continuará a responder cada vez melhor à pergunta: “O que podemos fazer?” Mas continuará incapaz de responder à única pergunta que verdadeiramente define um líder: “O que devemos fazer?”

É nessa diferença que continuará a viver o verdadeiro peso invisível de decidir.

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