O património não se esgota nos monumentos

Aline Hall de Beuvink

Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).

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A valorização patrimonial não pode circunscrever-se à monumentalidade arquitectónica ou à excepcionalidade artística. A história económica e social do país inscreve-se também nos espaços de produção, nas tecnologias, nos objectos e nos saberes que moldaram comunidades e territórios.

O Museu do Mobiliário de Paredes, instalado no Mosteiro de Santo Estêvão de Vilela, parte dessa premissa. Aberto experimentalmente ao público em Setembro de 2026, reúne testemunhos da indústria da madeira e do mobiliário, documentando processos produtivos e artes da marcenaria. Fá-lo num edifício de origens medievais, classificado como Imóvel de Interesse Público, cuja reabilitação lhe confere uma nova função cultural.

A iniciativa ultrapassa a evocação de uma actividade económica local. Interpela a própria definição de património nacional: este inclui não apenas os objectos excepcionais, mas também a cultura material, o conhecimento técnico e o património industrial, frequentemente vulneráveis ao desaparecimento.

Os museus municipais podem assumir, neste domínio, um papel determinante, complementando a acção das instituições nacionais e contribuindo para uma política cultural mais descentralizada, assente na investigação, no inventário e na salvaguarda de realidades patrimoniais tantas vezes ausentes das grandes narrativas históricas.

Mas importa também reconhecer a dimensão económica desta responsabilidade. O património não constitui apenas uma rubrica de despesa pública: representa um activo capaz de gerar valor, dinamizar o turismo cultural, estimular actividades económicas, criar emprego e atrair investimento.

A reabilitação de edifícios históricos, quando acompanhada de uma programação consistente, permite ainda devolver ao território estruturas que, de outro modo, correriam o risco de abandono e degradação. A preservação patrimonial deve, por isso, integrar uma estratégia de desenvolvimento sustentável, na qual cultura e economia não sejam entendidas como domínios antagónicos, mas como dimensões complementares da criação de riqueza e da coesão territorial.

A relevância de um museu municipal não se mede pela dimensão geográfica da sua implantação, mas pela capacidade de transformar um legado local em conhecimento, valor cultural e património colectivo.

Um país que não preserva o seu património compromete não apenas a compreensão do seu passado, mas também a capacidade de construir o seu futuro. Porque destruir património é consumir, irreversivelmente, uma riqueza que nenhuma geração tem o direito de desperdiçar.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico