É verdade: há 30 anos,em 26 de fevereiro de 1996, tomava posse o primeiro inspector-geral da Administração Interna, António Rodrigues Maximiano (1946-2008).Estava então a virar-se uma página. Não esqueçamos que poucas semanas antes tinha sido publicada legislação permitindo,pela primeira vez em setenta anos,que um civil estivesse à frente duma força de segurança.E três meses decorridos sobre o início de funções do primeiro governo Guterres,tornava-se realidade o que o sector nunca conhecera: um órgão vocacionado para o controlo externo da actividade policial.Tal como a chegada desse controlo,a escolha do Procurador-Geral-Adjunto não foi na altura bem acolhida por todos.Mas é hoje difícil contestar que a sua acção,as suas qualidades e a sua própria marca pessoal se revelaram de grande valor,logo desde a fase da instalação, para o enraizamento, projecção e resultados alcançados pela IGAI - à frente da qual se manteria quase uma década, tornando-se uma figura conhecida dos portugueses.A memória dos trabalhos iniciais de Maximiano,e da qualificada equipa de que se rodeou,traz associados aspectos eloquentes da herança que então se apresentava: lembro alguns.Havia nessa altura, sob responsabilidade das forças de segurança,seis dezenas de espaços, não inventariados, para onde eram conduzidos detidos,muitos deles não só sem requisitos mínimos como, sobretudo, sem quaisquer condições que permitissem controlar o cumprimento dos prazos legais de apresentação a juiz. Foram todos visitados,alguns melhorados, bastantes encerrados – e veio a ser introduzido,sob proposta da IGAI, um sistema que garantia a comunicação imediata à autoridade judiciária de qualquer entrada nesse circuito. Estávamos antes da chegada da net – era o célebre «fax» obrigatório.Outro lastro persistente eram as deficiências sérias no exercício do poder disciplinar. Num levantamento a que procedeu a IGAI, apurou-se que ocorrências entre subordinados e superiores tendiam a gerar mais consequências disciplinares do que as queixas apresentadas por cidadãos. Em meio milhar de processos analisados, recordo-me de que se contavam pelos dedos as suspensões preventivas, mesmo incluindo os casos que tinham dado lugar a processo-crime. Viria a ser expressivo, a curto prazo, o contributo da IGAI para um padrão mais equilibrado.Mas o maior deficit que então se identificava situava-se talvez na formação – e isso com efeitos não raras vezes críticos em matéria de observância de direitos, liberdades e garantias. Nessa nova prioridade, e nos capítulos para que estava vocacionada, assumiu a IGAI uma participação de fundo, desde logo nos programas de ensino à distância, preparados desde o início de 1997, abrindo com isso um caminho que seria aprofundado.Um dos membros da equipa da IGAI dos anos iniciais mencionava, não há muito, com nostalgia humanamente compreensível,a perda sobrevinda no protagonismo institucional. Esse não será, talvez, o ângulo a justificar destaque. Mas devolver a capacidade de resposta em tempo socialmente útil – muito em especial nos casos de maior relevância e projecção - e ampliar o contributo da IGAI para a qualificação da actividade policial constituiriam uma boa forma de homenagear e dar continuidade ao trabalho primordial de Maximiano.Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico