Agosto é, para mim, de há alguns anos para cá, mês de muitos reencontros, com amigos e familiares emigrantes que, por estes dias, regressam à terra (ou às novas terras adotivas que a vida nos trouxe). À mesa, de janela aberta para entrar uma pequena corrente de ar, da qual se vê uma paisagem quase despida de árvores após os violentos incêndios de 2025 na Serra do Açor, conversa-se muito, como sempre.
Este ano, um assunto dominou estas tertúlias. Não foi a trapalhada a que se assistiu nos Exames Nacionais do Secundário, que tantas dúvidas e ansiedade gerou (e ainda gera) a milhares de alunos e famílias, sem que se tenham retirado até agora as devidas consequências políticas e administrativas pela forma quase amadora com que foi tratado o processo de correção e disponibilização dos resultados. Nem tão pouco a sucessão de “casos e casinhos” que envolvem o ministro da Administração Interna, que vai ardendo em lume brando até às necessárias audições que deverão marcar o arranque dos trabalhos parlamentares.
Desta vez, ao contrário de outras ocasiões em que estiveram reunidas as mesmas pessoas, algumas delas emigradas há mais de 20 anos em França, na Espanha e na Suíça, o tema mais discutido foi o custo de vida em Portugal e a forma como isso se traduz em várias frentes.
Os relatos sucedem-se. O elevado preço dos combustíveis já não é novidade para ninguém, mas o valor das compras no supermercado surpreendeu este ano por já ser equivalente, ou até superior em alguns produtos, ao que costumam pagar em França e Espanha pelos mesmos bens. O turismo, mais concretamente na Região do Algarve, também foi comentado. Um casal, que reside junto a Paris, trocou a habitual semana de praia no sul de Portugal por uma estadia no sul de Espanha, onde o preço do alojamento ficou por quase metade. Outra família, de quatro pessoas, fez, sim, uma semana de férias no Algarve, mas hospedada no interior, a quase 20km do mar, porque só ali encontraram uma alternativa mais alinhada com o orçamento que tinham para este período de descanso. E contou, com alguma revolta, como lhes pediram 80 euros (“um preço para estrangeiros”, assim o descreveram) para realizarem uma atividade náutica que não demorava sequer dez minutos numa praia de Loulé.
Outra família lamentou ter hesitado, há meia dúzia de anos, na altura de fazer o tão desejado investimento numa habitação próxima da aldeia beirã que os viu crescer, principalmente tendo em conta que, agora, o valor mais em conta que conseguiram identificar, por uma casa modesta, com uma pequena parcela de terreno, disparou para cima de 160 mil euros. E ainda no que diz respeito a casas, embora aqui o custo ainda não entre na equação, vale a pena registar o relato de um amigo, residente na Suíça, que está desde janeiro à procura de alguém que faça umas obras na antiga habitação dos pais, na Margem Sul do Tejo, sem conseguir quem pegue no trabalho com brevidade.
A construção civil é um setor deficitário em mão de obra, de há vários anos para cá, e não há sinais que permitam pensar que a situação se altere num curto espaço de tempo. Os jovens portugueses, legitimamente, preferem outros caminhos profissionais (basta olhar para o número de candidatos ao Ensino Superior este ano, acima dos 60 mil, um máximo das últimas três décadas). E o aparente travão na imigração também não ajuda, podendo até estar em curso a saída do país de muitos destes cidadãos, como foi noticiado pelo DN Brasil esta segunda-feira.
Portugal tem atualmente cerca de 1,8 milhões de emigrantes. Governos e Presidentes da República, de diferentes partidos, têm insistido na importância de desenvolver políticas que os façam querer regressar ao país. Mas, perante este quadro, acreditar nesse movimento só mesmo por ato de fé.
Por mais que o primeiro-ministro diga que Portugal “está a viver um bom momento” apesar das adversidades, é quase impossível ouvir alguém que não um governante repetir essas palavras. Para tomar o pulso ao país, talvez a melhor solução fosse mesmo Luís Montenegro sentar-se à mesa, num bom almoço de maranhos e feijão com couves, e escutar o que se diz fora da cápsula selada de São Bento.