O Pacto de Meca e a ilusão dos blocos

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

Três países muçulmanos sunitas assinaram uma Defesa comum. Mas a fé partilhada não faz uma estratégia partilhada, e o que hoje os une é o que amanhã os pode dividir.

Assinou-se em Meca, a 7 de Agosto, um pacto de Defesa conjunta entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia, com uma cláusula decalcada do artigo 5.º da NATO: um ataque a um será ataque a todos. A leitura fácil diz que o Golfo se afasta dos Estados Unidos à procura de outro guarda-chuva. É pobre: o que interessa neste pacto não é a força aparente, é a fragilidade estrutural.

Não é uma aliança no sentido próprio, é um alinhamento de conveniência entre três Estados que, tirando o Islão sunita, têm pouco em comum: etnias distintas, geografias de ameaça que não coincidem, culturas estratégicas que nunca operaram juntas no terreno. Anunciaram-se estruturas de coordenação, mas não uma única obrigação militar concreta. Instituições sem obrigações não desmentem a fragilidade, provam-na.

Cada um assina o mesmo papel a olhar para uma guerra diferente. A Arábia Saudita traz o capital e a ansiedade: a mais rica dos três, bem armada e militarmente fraca, vive, desde o ataque a Abqaiq e Khurais, em 2019, com a dúvida de saber se o guarda-chuva americano a cobre sempre ou só quando convém a Washington. O que compra em Meca é, na lógica de Riade, alguma dissuasão nuclear, por procuração, que o dinheiro saudita nunca desenvolveu.

O Paquistão traz essa dissuasão e uma economia à beira do abismo. Único Estado nuclear do mundo muçulmano e devedor crónico, vende o que tem em excesso, capacidade militar e estatuto atómico, por oxigénio financeiro: em finais de Julho, pouco antes de Meca, Riade prorrogou-lhe por três anos os cinco mil milhões de dólares em depósitos que lhe seguram as contas externas. Mas o essencial é outro: o teatro de Islamabad não é o Médio Oriente, é a Índia. Israel não é ameaça para o Paquistão, embora um Irão diferente o possa vir a ser.

A Turquia traz a ambição. Segundo maior Exército da NATO em efectivos, com indústria de Defesa em ascensão rápida, não precisa do pacto para se sentir segura. Entra por projecção: um assento num Golfo que sempre a olhou com a desconfiança da herança otomana, e um instrumento na disputa com a própria Arábia Saudita pela liderança sunita. Meter rivais na mesma aliança não apaga a rivalidade, congela-a. 

Nem sequer consegue crescer. Fidan foi esta semana ao Cairo cortejar o Egipto, que seria quem daria dimensão ao pacto; mas o Cairo, alinhado com Atenas e Nicósia num diferendo marítimo que colide com as pretensões turcas, e preso ao Tratado de Paz com Israel, hesita perante obrigações vinculativas, o que, em diplomacia, se traduz por não. É nesse triângulo, e não em Meca, que hoje se mede o limite do expansionismo turco.

Falta o nó, que ninguém diz em voz alta. Chamam a isto um bloco anti-iraniano, embora Ancara e a própria diplomacia iraniana o neguem. A razão é geográfica. Islamabad já vive com a Índia a Leste, que mantém com Israel uma relação estratégica robusta. Se o Irão caísse para um regime alinhado com Telavive, o Paquistão ficaria sem o flanco Ocidental neutro que Teerão, apesar da divisão sectária, sempre lhe garantiu. Um Irão islâmico e hostil é problema gerível; um Irão pró-israelita poderia ser asfixia. Por isso não quer o colapso do regime, mas quer cadeira em qualquer articulação sobre o pós-regime, e mantém com Teerão canal aberto ao mais alto nível.

As reacções dizem mais do que o texto. A primeira veio de Teerão, no próprio dia, e não foi dirigida a Ancara, nem a Islamabad, foi a Riade: um deputado da Comissão de Segurança Nacional avisou que um acordo de papel com a Turquia e o Paquistão não trará segurança aos sauditas, tal como décadas de dependência dos americanos não trouxeram. É ameaça velada e certeira, porque vai direita ao que Riade foi ali comprar.

Dias depois, a diplomacia oficial suavizou, garantindo não ver o pacto dirigido contra o Irão. As duas mensagens dividem tarefas: uma reclama a derrota americana, a outra avisa o comprador de que a apólice pode não cobrir o sinistro. E Putin, a propósito do Pacífico, queixou-se esta semana de que "novos blocos político-militares estão a ser criados": leitura errada, e é por isso que lhe serve, porque lhe permite pintar a Rússia como acuada por uma extensão da NATO e justificar o cerco que é o dele.

O pacto tem, assim, duas causas de morte independentes: não tem dimensão, nem capacidades, para sustentar arquitectura de segurança nenhuma e, mesmo que as tivesse, os seus membros não querem o mesmo desfecho para a guerra que os juntou. E essa guerra não terminou. Quem já anda a distribuir vencedores está a ler mal o tabuleiro.

Meca não é uma arquitectura alternativa. É uma apólice tirada por três clientes enquanto a arquitectura verdadeira é redesenhada por outros. No Médio Oriente de 2026, os alinhamentos lêem-se caso a caso, interesse a interesse, e quase sempre contra a intuição. Quem insistir em lê-los em blocos continuará a não perceber o que vê.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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