O outono, por fim?

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

Publicado a: 

Les sanglots longs

des violons d’automne

Blessent mon coeur

d’une langueur monotone.

Verlaine

Tardou. E nem é certo que fique. O caprichismo do clima tem sido coerente com a situação de crise climática, face à qual entrámos agora em estado de negação. O outono é ainda uma incógnita.

Sempre me surpreendeu que os versos de Verlaine que servem de epígrafe a este artigo tenham servido de senha para o lançamento da operação de invasão da Normandia, momento decisivo da Segunda Grande Guerra do século XX. A melancolia do outono, feita de um insidioso anúncio de morte que subjaz à iminente chegada do inverno, parece pouco harmoniosa com um apelo heróico à coragem do combate. Mas talvez seja, pelo contrário, nessa diferença que melhor se esconde e disfarça o sentido da mensagem codificada enviada aos militantes da Resistência. Ou talvez nada tenha que ver o sentido e a música do poema com a cifra usada por Londres na sua mensagem aos franceses livres.

Nestes dias tumultuosos e incertos, muitos dirão “delicodoces” os versos de Verlaine. Vivemos um tempo sem doçuras, nem entregas, e hoje o que fica é a amargura na voz ou a agressão no grito. O soluçar dos violinos passou para a geração anterior, a geração da melancolia pós-moderna. No atual mundo de guerras e de medos, é antes cinismo e irrisão o que se espera das letras e das artes. Ou então já nada se espera.

A “melancolia de esquerda” (excelente termo de Enzo Traverso) tem de de ser ultrapassada por um impiedoso pensamento crítico que abra caminho a propostas práticas, suscetíveis de serem realizadas sem necessidade de um apocalipse, antes cortando caminho à hecatombe. Por estranho que vos pareça, é de uma social-democracia realista, mas com âncora firme e segura à esquerda, que espero, como todos nós, de tradição democrática e teimosia progressista, o sinal de alarme que possa fazer parar o comboio desenfreado da loucura universal.

Este começo de outono tem sido para nós, portugueses, como habitualmente, o doce cair das folhas das nossas ilusões e, ao mesmo tempo, o amargo cair da aura do nosso maior herói futebolístico, que é, por força da cultura dominante e por inerência do futebol, o nosso maior herói nacional.

O melhor texto que se escreveu sobre este “ato trágico” foi sem dúvida o artigo, a todos os títulos notável, de Rogério Casanova no Público do passado domingo. Sim, todos somos ou seremos um dia o nosso próprio Cristiano Ronaldo, recusando-nos a aceitar que o nosso tempo passou e tomando como conspiração mafiosa a progressiva distância do público em relação a nós.

Somos todos Cristiano Ronaldo – não porque nos identifiquemos ou apoiemos as suas posições públicas, que nós seríamos incapazes de assumir, por sermos um pouco mais objetivos em relação a nós próprios e, por isso, menos escravos dos nossos próprios egos, mas porque todos nos recusamos a encarar a progressiva perda ou diminuição daquilo que tão bem soubémos fazer, fossem sapatos ou poemas líricos, à medida que o tempo vai passando.

O outono dos heróis é o nosso outono e, por isso, tantos aderem à recusa passional de Cristiano Ronaldo. Eu não sei, nem procuro saber, o que se passou entre aquelas pessoas, cujos nomes agora cobrem as manchetes dos jornais. O que me parece é que ninguém neste caso foi minimamente delicodoce – ou tão somente delicado.

Diário de Notícias
www.dn.pt