O Orçamento 2027 e a adaptação climática

Sofia Santos

PhD, CEO da Systemic

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Falar de gestão e de retorno implica, hoje, falar da capacidade de antecipar riscos e de reduzir os seus impactos. Porém, em muitas empresas portuguesas, a preocupação com os riscos climáticos, de natureza e sociais ainda não se traduz em preparação concreta. E essa distância entre conhecer o risco e agir sobre ele tem um custo. Muitas empresas não sabe como se podem preparar, nem podem ainda ter consciências da sua vulnerabilidade aos riscos climáticos.

Uma inundação pode parar a produção, a seca encarecer matérias-primas e o calor extremo reduzir a produtividade. A degradação dos ecossistemas ameaça recursos de que os negócios dependem. Estes impactos afetam receitas, custos e contratos, tornando a adaptação uma questão de gestão financeira. A dimensão social faz parte desta equação. Trabalhadores com habitação precária ou dificuldades de acesso a transportes e cuidados de saúde estão mais expostos às consequências de uma catástrofe. A resiliência de uma empresa depende também das condições de vida das pessoas que nela trabalham.

O mesmo raciocínio se aplica ao Estado. Quando uma catástrofe destrói infraestruturas e afeta famílias e empresas, aumenta a necessidade de despesa pública e pode diminuir a receita fiscal. Antecipar estes efeitos no Orçamento do Estado e no planeamento plurianual é essencial para compreender quanto custa não preparar o país.

O relatório do Orçamento do Estado para 2027 mostra que 73,9% da despesa classificada como verde está associada à mitigação e 12,9% à adaptação. No entanto, cerca de 47% da despesa com a Adaptação corresponde a medidas de emergência de apoio e recuperação após a tempestade Kristin. Ou seja, metade da despesa que existe relativamente à adaptação climática, é na realidade despesa em perdas e danos, e não em medidas que pretendem diminuir o impacto negativo da ocorrência de eventos climáticos. Estes números convidam a uma reflexão: quanto estamos a investir para reduzir riscos futuros e quanto estamos a gastar para responder a danos já ocorridos? A reconstrução pode aumentar a resiliência, mas a sua classificação como adaptação não demonstra, por si só, que todo esse montante tenha uma função preventiva.

Esta distinção deve orientar as escolhas de investimento. Uma estrada, um hospital ou uma rede de água precisam de ser concebidos considerando o clima futuro e as necessidades das populações. Caso contrário, arriscamo-nos a financiar hoje infraestruturas que amanhã exigirão novas despesas de reparação.

O Orçamento do Estado para 2027 prevê também apoio à elaboração e execução de planos de adaptação e resiliência nos transportes e mobilidade, sem indicar o montante. É um passo relevante, que importa alargar a outros setores. Planos com medidas, responsáveis e financiamento podem reduzir perdas empresariais e a necessidade de apoios públicos de emergência. Preparar as empresas é também proteger as contas do Estado.

A orçamentação verde pode ajudar a tornar esta relação mais clara. Investir antes da emergência deve fazer parte da gestão das empresas e do país. Tendo em conta que a Europa está a preparar uma lei de Resiliência Climática, pois agora a adaptação ao calor, ás chuvas intensas e ás secas é também um tema Europeu, poderá o próximo grande pacote de financiamento europeu centrar-se na adaptação?

A 14 de Outubro a conferência que vai ocorrer em Lisboa sobre “Os novos riscos financeiros: clima, natureza e social” irá debater todos estes temas!

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