Ontem, Carlo Ancelotti convocou a seleção brasileira de futebol pela primeira vez depois do Mundial de junho e julho na América do Norte. E boa parte dos nomes escolhidos pelo italiano mereceram, da maioria da população, um “quem?” logo a seguir.
A crise de craques não explica tudo, até porque o Brasil apesar de não viver uma das melhores colheitas da história, ainda tem muitos jogadores de elite espalhados pela Europa.
Mas é aí, na Europa, que reside um dos problemas para a falta de vínculo: alguns dos atletas saíram do Brasil cedo demais. Ainda há um ano, dois adeptos comuns foram apanhados a conversar num boteco sobre Bruno Magalhães e Gabriel Guimarães, sem notarem que trocavam o nome e o apelido de dois dos hoje mais valiosos astros do Arsenal, da Premier League e da seleção verde-amarela. É que, no futebol brasileiro, um só jogou no Athletico Paranaense e outro apenas no Avaí, clubes longe dos grandes centros mediáticos, antes de rumarem, em torno dos 20 anos, para clubes franceses de meio da tabela.
Outro motivo, entretanto, é que o futebol, outrora o território por excelência da emoção, aquela emoção que às vezes falta à nossa vida quotidiana, palco de derrotas ou de vitórias inequívocas, de tudos e de nadas em 90 minutos, onde as paixões exageradas, exacerbadas, exasperadas, desesperadas por um dos campos são socialmente aceitáveis, foi substituído pela política.
Hoje os brasileiros são mais lulistas do que flamenguistas, mais bolsonaristas do que corintianos – exageradamente, exacerbadamente, exasperadamente, desesperadamente.
E como na política, ao contrário do futebol, não há jogos frente a frente, todos os fins de semana, os duelos se disputam com outras bolas. Nomeadamente, a bola da Justiça, uma vez que os processos em tribunal são, além dos atos eleitorais, o que de mais parecido com um jogo de futebol o jogo político tem para oferecer. Há até árbitros.
Ora, os principais árbitros, que costumam ter em mãos casos capazes de mudar a sorte de eleições, são indicados pelos presidentes – ou substitutos dos clubes – e por isso devem-lhes tácita obediência.
Tendo essa realidade em conta, Lula da Silva sugeriu o nome do advogado pessoal e o do seu ministro da Justiça para o Supremo, assim como Jair Bolsonaro recomendara um conservador “com quem pudesse tomar uma cerveja” e, também, o seu ministro da Justiça “por ser terrivelmente evangélico”.
Até há uns anos, o povo futebolizado conhecia por paixão os onzes titulares do Brasil de 58, 62, 70, 94 e 2022, os anos do penta, e declamava, como poemas de Carlos Drummond de Andrade ou de Vinícius de Moraes, os nomes de Gylmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Vavá, Zagallo, Pelé e Garrincha, de Carlos Alberto, Gerson, Jairzinho, Pelé, Rivelino e Tostão, de Taffarel, Dunga, Romário e Bebeto, de Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo Fenómeno ou Ronaldinho.
Hoje o povo, mais politizado do que futebolizado, debita os nomes de juízes do Supremo de cor e salteado. Até porque também são 11, como uma equipa de futebol, mas sem chuteiras no pé e toga às costas.