A ONU publicou a 15 de setembro o último Relatório de Risco Global, em que mais de 1300 responsáveis de governos, empresas, sociedade civil e das Nações Unidas, em 155 países, avaliaram 28 riscos quanto à probabilidade, gravidade, horizonte temporal e preparação das instituições multilaterais.
Da sua leitura resulta uma distinção importante: há riscos que desaparecem e outros em que apenas deixamos de pensar. A diferença importa porque governos e organizações internacionais investem dinheiro e capital político no que consideram urgente. Mas os riscos deixados para trás não desaparecem. O que mudou foi a hierarquia do medo.
Em 2024, as principais preocupações eram o ambiente, a desinformação e a saúde. Em 2026, a guerra regressou ao centro, subindo ao 4.º lugar dos riscos avaliados. Mais de um terço dos inquiridos espera um impacto significativo dentro de um ano e 76% em sete. A guerra e as tensões geopolíticas estão entre os cinco principais riscos em seis das sete regiões; há dois anos, isso acontecia apenas numa.
Num mundo de rearmamento, guerras e rivalidade entre potências, é fácil perceber porquê. E, embora a Inteligência Artificial suba cinco lugares, o clima e a saúde pública perderam atenção relativa.
O relatório mede perceções. Não prevê o futuro. E é por isso que importa. Nenhuma ameaça se torna menos perigosa porque outra passou a ocupar os jornais e as televisões: as alterações climáticas não esperam pelo fim das guerras e uma nova pandemia não aguardará que resolvamos os conflitos atuais. Mas a atenção política é finita e o dinheiro e as instituições acompanham-na.
Talvez o principal aviso do relatório esteja mais no que não diz do que naquilo que diz. O maior perigo pode não estar nos riscos do topo da tabela, mas na tendência para substituir uma preocupação por outra, confundindo mudança de atenção com mudança da realidade.
Esta será a parte mais difícil de governar num mundo de crises sucessivas. Gerir riscos não é escolher qual merece toda a atenção. É ter instituições capazes de acompanhar vários ao mesmo tempo, sem que a emergência de hoje nos faça abandonar a preparação para a crise de amanhã.
Portugal deve lê-lo com particular responsabilidade. Em junho, foi eleito para o Conselho de Segurança para 2027-2028, a quarta vez que ali ocupa um lugar, agora com uma candidatura construída em torno de três palavras: prevenção, parceria e proteção. O relatório pode ser lido como o caderno de encargos desse mandato.
Prevenir é agir antes de a ameaça virar crise, respondendo ao urgente sem abandonar o que continua importante. Na Defesa, é preciso reforçar a capacidade no Atlântico, no ciberespaço e nas infraestruturas críticas. No Clima, um ano menos devastador pelos incêndios não significa que o risco estrutural tenha diminuído. E, na Inteligência Artificial, centenas de milhões não bastarão se a Europa continuar dependente de computação, dados e plataformas de terceiros.
Nos próximos anos teremos novas crises a exigir decisões imediatas. Algumas estão nestes 28 riscos e outras ainda não conhecemos. O desafio não será apenas perceber para onde olhar, mas não esquecer os riscos e desafios que deixámos de olhar.