O mapa da compaixão

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Há uma hierarquia silenciosa na atenção que damos ao sofrimento alheio. Gaza, a Ucrânia e o Golfo Pérsico ocupam, com razão, as primeiras páginas. Mas há um conjunto de guerras que decorrem fora do enquadramento ocidental e que, por isso, quase não existem para nós. Não porque matem menos. Porque matam longe e matam quem não se parece connosco.

O Sudão é o caso mais brutal da nossa indiferença. Desde abril de 2023, o conflito entre o exército e as forças paramilitares já provocou estimativas de mortes que ultrapassam as 150 mil — somando combate, fome e doença — e deslocou mais de 11 milhões de pessoas, na maior crise de deslocamento do mundo. A fome instalou-se em El Fasher e noutras regiões. E, no entanto, quantas vezes abriu o telejornal com o Sudão?

Não é caso único. Na República Democrática do Congo, o avanço do M23 sobre Goma, no início de 2025, deixou cerca de 2900 mortos numa só semana e somou-se a mais de quatro milhões de deslocados no leste do país — com um historial de guerras que, desde os anos noventa, terão custado milhões de vidas. No Sael — Mali, Burkina Faso, Níger — a violência jihadista e os golpes militares produziram, só em 2025, mais de nove mil mortos registados pela ONU, esvaziando aldeias inteiras. Em Mianmar, a guerra civil que se seguiu ao golpe de 2021 fez cerca de 90 mil mortos e deslocou mais de três milhões e meio de pessoas. No Iémen, uma década de bombardeamentos e bloqueio deixou perto de 377 mil mortes — a maioria por fome e doença — e uma das piores crises humanitárias contemporâneas, hoje praticamente ausente das notícias.

A aritmética é desconfortável. Por cada vítima europeia que conhecemos pelo nome, há centenas de africanos e asiáticos que morrem como número, quando chegam a ser número. O jornalismo, refém da proximidade cultural e do interesse do leitor, replica esta seleção. E a seleção tem consequências: o que não se noticia não comove, o que não comove não pressiona e o que não pressiona não muda. A invisibilidade não é neutra — é, ela própria, uma forma de abandono.

Não se trata de estabelecer concursos de tragédias, nem de retirar atenção a Gaza ou à Ucrânia. Trata-se de reconhecer que a dignidade de uma vida não devia depender da latitude em que se perde. Quando decidimos, ainda que sem o decidir conscientemente, que umas mortes valem mais do que outras, dizemos sobre nós próprios algo que preferíamos não saber: que a nossa compaixão tem mapa e que esse mapa termina onde começa a diferença.

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