O maior risco não é a crise é a complacência

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Portugal não enfrenta uma crise estrutural imediata. Cresce acima da média da Zona Euro. O desemprego está controlado. As exportações resistem. Mas estabilidade não é estratégia. E crescimento não é convergência.

A produtividade portuguesa continua cerca de 25% abaixo da média da União Europeia. Este é o verdadeiro indicador de risco: produtividade determina salários, inovação e capacidade de competir globalmente. Sem ela, o crescimento é circunstancial.

Em 2022, Portugal investiu cerca de 1,7% do PIB em investigação e desenvolvimento. A média europeia ultrapassa 2,2%. Países como Suécia, Áustria ou Alemanha investem acima de 3%, a Coreia do Sul supera 4%. Estes números não são estatística académica - são sinais claros de prioridade estratégica.

O problema não é falta de talento. é falta de escala e foco.

Se queremos evitar irrelevância gradual, precisamos de decisões concretas.

Primeiro: elevar o investimento em I&D para 3% do PIB até 2030, com, pelo menos, dois terços provenientes do setor privado. Isso exige incentivos fiscais estáveis por uma década, fundos de coinvestimento público-privados e simplificação radical dos mecanismos de candidatura.

Segundo: criar três polos industriais estratégicos com escala internacional - por exemplo, energia e hidrogénio verde no sul, tecnologia industrial e automação no norte, economia do mar e biotecnologia no litoral atlântico. Concentração gera massa crítica; dispersão perpetua mediocridade.

Terceiro: reformular os critérios de financiamento universitário, introduzindo métricas de impacto económico - patentes registadas, startups criadas, contratos industriais. Conhecimento que não gera valor económico perde tração competitiva.

Quarto: incentivar crescimento empresarial. Portugal tem excesso de microempresas e escassez de empresas médias globais. Criar benefícios fiscais progressivos para empresas que duplicam exportações em cinco anos ou que ultrapassam determinado limiar de produtividade seria um sinal claro de política pró-escala.

Quinto: reformar cultura de risco. Simplificar processos de insolvência e reestruturação para reduzir estigma do fracasso. Economias inovadoras aprendem rápido, porque falham rápido.

Enquanto isso, os Estados Unidos reforçam a política industrial com centenas de milhares de milhões de dólares. A China consolida quase 30% da produção industrial global. O Médio Oriente investe agressivamente em diversificação tecnológica. O mundo está a escolher posicionamento.

A questão é simples: queremos competir ou apenas sobreviver?

A complacência surge quando celebramos fundos europeus sem medir retorno estrutural. Quando confundimos execução administrativa com estratégia económica. Quando acreditamos que estabilidade atual garante futuro.

Não garante.

Países pequenos não podem ser reativos: ou escolhem foco e escala, ou tornam-se periféricos nas cadeias de valor globais.

O maior risco não é enfrentar transformação, é chegar à próxima década com a mesma ambição da anterior.

Relevância não é um direito adquirido.

É uma decisão estratégica repetida ao longo do tempo.

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