O Líbano refém do Hezbollah e do Irão

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cMais de um em cada dez libaneses foram forçados nos últimos tempos a fugir à guerra, 700 mil pessoas deslocando-se dentro do país para escapar aos bombardeamentos israelitas contra o Hezbollah, um grupo armado, também partido político, que foi criado pelo Irão há quatro décadas e que continua a ser um fiel aliado do regime dos ayatollahs, como agora mostrou sem disfarçar.

Se pensarmos que com apenas 10 mil km2 o Líbano é praticamente do tamanho do distrito de Beja, apesar de os combates serem sobretudo no sul e também em Beirute, a capital, percebe-se que nenhum dos seis milhões de habitantes está a salvo do impacto de um conflito que uma vez mais destrói as ambições de normalização do pequeno país árabe, herdeiro longínquo da Fenícia. O próprio presidente Joseph Aoun acusou o Hezbollah de estar a contribuir para o colapso do Estado ao atacar Israel e provocar a reação deste, altamente destrutiva.

O Hezbollah é um movimento xiita fundado em 1982 em plena guerra civil libanesa. Tem um historial de ataques terroristas, inclusive contra tropas americanas, mas também ganhou créditos entre a população libanesa por ter obrigado Israel a retirar as suas tropas do sul do país em 2000, após 18 anos de ocupação.

A guerra civil libanesa, que durou de 1975 a 1990, foi um conflito entre as várias comunidades etno-religiosas, mas trouxe igualmente intervenções estrangeiras, incluindo da Síria, que chegou a impor uma espécie de tutela sobre o país, até ser contestada e depois entrar ela própria em guerra civil, e, portanto, com outras prioridades.

Israel, argumentando com a necessidade de defender a sua fronteira norte, demorou a retirar, mas mesmo depois de 2000 sempre intervindo contra o Hezbollah, que nunca deixou de ser uma ameaça ao Estado Judaico. Em 2006, uma breve guerra entre Israel e o Líbano aconteceu novamente por causa dos ataques do grupo xiita. Estive em Metula, mesmo na fronteira, no ano passado, e ouvi os relatos de quem se recusa a viver sob fogo constante do Hezbollah e aplaude a resposta militar ordenada por Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita.

Assim que Israel e os Estados Unidos atacaram uma vez mais o Irão, a 28 , de fevereiro, o Hezbollah reagiu. Não foi surpresa, tirando que a eliminação do seu líder dois anos antes, e a pesada retaliação israelita pelos ataques em solidariedade com o movimento palestiniano Hamas, davam a entender que estaria enfraquecido e mais cauteloso. Mas a lealdade ao Irão pesou mais do que tudo, tal como já tinha acontecido quando começou a bombardear Israel após o massacre de 7 de outubro de 2023 pelo Hamas nos kibbutz junto a Gaza.

A vitória de Israel sobre o Hezbollah não está em causa. Pode é não ser total ou imediata. Tudo dependerá de continuar ou não a receber apoio de um regime iraniano também sob forte ataque, e também se os xiitas libaneses viram,, ou não costas a um grupo que pensa mais no regime que é seu patrono do que no povo libanês. Também importa perceber como vão reagir as outras comunidades libanesas, nomeadamente os sunitas, os cristãos e os drusos. Afinal, mesmo que a fúria israelita se concentre no Hezbollah, é impossível um país estar sempre (ou quase) em guerra com o vizinho do sul.

Até à guerra civil o Líbano era um país próspero. Depois de séculos como parte do Império Otomano, tinha vivido uma curta experiência de colonização francesa que reforçou a tradição de terra de convivência e aberta. A independência chegou em 1943 e um acordo entre as comunidades criou um sistema político em que o presidente é sempre um cristão (maronita, como Aoun), o primeiro-ministro um muçulmano sunita e o presidente do parlamento um muçulmano xiita. Não se voltou a fazer um recenseamento da população, mas hoje é evidente que os cristãos, de várias denominações, já não são a maioria, quando muito um terço dos libaneses. Os muçulmanos serão perto de dois terços, repartidos em metades quase iguais entre sunitas e xiitas. Os drusos, por seu lado, serão cerca de 5%. A maior emigração para a Europa (sobretudo França) e um número menor de filhos das famílias cristãs explica a alteração demográfica daquele que é ainda o país árabe com maior percentagem de cristãos, comunidade em quebra acelerada, por exemplo, no Iraque ou na vizinha Síria.

Até hoje, o Estado libanês tem sido incapaz de dominar o Hezbollah. Mesmo quando os acordos de paz com Israel, ou de mero cessar-fogo como o de 2024, mediados por americanos e francese, passam por uma retirada do Hezbollah do sul, as forças armadas libanesas não estão em condições de o fazer, seja por temerem um confronto, seja por receio de abrirem brechas entre as comunidades, ou parecer estar de algum modo a ceder aos israelitas. A própria ONU mostra-se impotente, embora presente no terreno. Mas é evidente que o Líbano não ganha nada com o Hezbollah. E os apelos de Aoun a Israel, ao qual acusa de nunca ter respeitado sequer o acordo de cessar-fogo de 2024, para parar os ataques, fazer Uma trégua e tentar chegar a paz, assim como o desafio à comunidade internacional para ajudar o país no esforço de desarmar a milícia xiita, são a prova disso.

Israel, que sabe que o Hezbollah é um inimigo existencial, deveria, além de atacar, aproveitar negocialmente a ocasião para isolar o grupo, não dando hipótese a que, em desespero perante a violência e o caos, os libaneses acabem por ter a tentação de voltar a ver os extremistas como uma espécie de resistência nacional.

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