O Irão será sempre importante mas não deve ser indispensável

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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A guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão voltou a colocar o Médio Oriente no centro da atenção mundial e o foco está agora nas negociações entre Washington e Teerão, nas posições de Telavive e nos riscos de uma nova escalada. Mas há uma questão mais profunda.

Os últimos meses confirmaram que o Irão é, e continuará a ser, uma potência regional relevante. A sua geografia, a dimensão da população, os recursos energéticos e a influência política garantem-lhe um papel incontornável na arquitetura do Médio Oriente. Mas ser relevante não é o mesmo que ter capacidade para gerar perturbações sistémicas à escala global.

É aqui que a geografia se transforma em poder. O Estreito de Ormuz permanece um dos principais corredores por onde passa uma parte significativa do petróleo e do gás natural comercializados internacionalmente. Sempre que a tensão aumenta, os mercados não reagem apenas ao risco de conflito. Reagem à possibilidade de interrupção de um fluxo vital para a economia mundial.

A questão central não é, portanto, o comportamento do Irão. É a vulnerabilidade do sistema internacional.

Uma leitura em prospetiva mostra que muitas das crises estratégicas do século XXI resultarão tanto da fragilidade das redes como da força dos Estados. Os sistemas tornam-se vulneráveis quando dependem excessivamente de um único ponto de passagem, de um único fornecedor ou de uma única geografia. Ormuz é um desses pontos, tal como o Canal de Suez, o Canal do Panamá ou os estreitos do Sudeste Asiático.

O mesmo padrão observa-se nas cadeias de abastecimento de semicondutores, nos minerais críticos e nas infraestruturas digitais que sustentam a economia global.

Durante décadas, a globalização foi construída segundo uma lógica de eficiência: produzir onde era mais barato, transportar pelas rotas mais rápidas, concentrar onde existiam maiores vantagens competitivas. O resultado foi um sistema altamente eficiente em períodos de estabilidade.

Mas a eficiência tem um preço e quando desaparecem as alternativas, aumenta a vulnerabilidade.

A crise atual evidencia a necessidade de diversificar rotas energéticas, desenvolver corredores alternativos entre o Mar Vermelho, o Mediterrâneo Oriental e o Oceano Índico, e reforçar a integração dos Estados do Golfo através de infraestruturas interligadas e mecanismos conjuntos de resposta a crises. Exige igualmente a proteção da liberdade de navegação por via de soluções multilaterais, reconhecendo que a estabilidade destes corredores é um interesse partilhado dos Estados Unidos à Europa, da China à Índia, do Japão aos países da própria região.

Implica também acelerar a transição energética. Reduzir a dependência global dos hidrocarbonetos não é apenas uma política climática mas uma política de segurança internacional. Cada avanço em energias renováveis, armazenamento, hidrogénio ou eficiência reduz a capacidade de qualquer corredor marítimo ou produtor individual provocar choques sistémicos à escala global.

A crise iraniana revela, na realidade, um desafio mais amplo: repensar a arquitetura da globalização para um mundo simultaneamente interdependente e instável. Um mundo em que será necessário substituir dependências por alternativas, vulnerabilidades por redundância e eficiência por resiliência.

O Irão continuará a ser importante. Mas a estabilidade internacional dependerá da capacidade de garantir que a importância não se transforme em indispensabilidade.

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