Somos o que fazemos, não o que dizemos que vamos fazer.Carl Gustav JungPrestigiado psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica e um dos mais importantes pensadores do seu tempo (1875 – 1961) À data do boletim oficial de 13 de maio de 2026, da Organização Mundial da Saúde (OMS), estavam registados oito casos confirmados, dois casos prováveis e um caso em estudo, num total de 11 pessoas. O surto de hantavírus ocorreu a bordo do navio MV Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, a 1 de abril de 2026, inicialmente com 114 passageiros e 61 tripulantes. A 15 de maio de 2026, a OMS reduziu o número total de casos para dez, uma vez que os testes do caso em estudo foram negativos.Tratou-se do primeiro grande surto após a pandemia de COVID-19, que representou uma ameaça à escala global. Mais uma vez, a ciência e a indispensável coordenação da OMS foram determinantes na contenção e no esclarecimento da situação. Num mundo cada vez mais desigual, com países a apresentarem recursos e prioridades distintas, nomeadamente em função das características populacionais, este surto confirmou a importância e a necessidade imperiosa de organizações como a OMS.Embora estejam descritos surtos há vários séculos, o hantavírus só foi isolado em 1976, num roedor, o rato-do-campo listrado, próximo do rio Hantan, na Coreia do Sul. Este roedor representa um dos principais reservatórios do vírus, cujo isolamento se deveu ao médico Ho‑Wang Lee, falecido em 2022, aos 93 anos.Estão descritas mais de 40 espécies de hantavírus, das quais, pelo menos, 22 podem ser patogénicas para os humanos. Das várias espécies identificadas, apenas uma, o vírus Andes, endémico no Chile e na Argentina, está associada à transmissão de pessoa para pessoa após contacto próximo e prolongado, sobretudo na fase inicial dos sintomas, que podem surgir tardiamente, geralmente até à sexta semana.Admite-se que a infeção inicial tenha ocorrido antes do embarque, estando os restantes casos associados à transmissão a bordo, com isolamento do vírus Andes. Ao contrário do SARS‑CoV‑2, o período de incubação é mais longo e não estão descritos casos de transmissão por pessoas assintomáticas, o que torna o risco pandémico dos hantavírus possível, mas nada provável.Os Estados Unidos da América (EUA) saíram oficialmente da OMS em 22 de janeiro de 2026. Já em 2025, a Administração Trump tinha cortado fundos para a investigação de vírus que podiam passar de animais para pessoas, incluindo o hantavírus. Estima-se que 41 cidadãos americanos se encontrem em unidades de quarentena ou sob vigilância sanitária intensiva, segundo os mesmos critérios usados durante a pandemia de COVID-19 e que, na altura, os atuais responsáveis pela saúde dos EUA tanto criticaram. Não haja dúvidas: não somos o que dizemos.