Pedro Passos Coelho admitiu, já em março deste ano, voltar à vida partidária “quando quiser” e defendeu que o PSD devia ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a Iniciativa Liberal. Luís Montenegro respondeu propondo eleições diretas e desafiando quem tivesse outro caminho a apresentar-se. O episódio pareceu encerrado. Não está. Foi apenas o primeiro ato de uma peça cujo desfecho começa a desenhar-se com uma nitidez inquietante.
As sondagens dos últimos meses colocam a AD atrás do PS e, nalguns casos, atrás do Chega. A estratégia de Montenegro, que consistiu em governar ao centro recusando qualquer entendimento de fundo à sua direita, tem um limite evidente: o eleitor que procura mudança encontra-a noutro lado e o que procura estabilidade não lhe reconhece mérito suficiente para a premiar. Quando o PSD perder as próximas eleições, a direita terá uma solução pronta a usar. Chega, PSD e IL, provavelmente sob a liderança de Passos Coelho, a única figura capaz de transformar o velho “não é não” num simples interregno.
O PS não sairá incólume deste processo. Continuará a beneficiar mais do desgaste alheio do que de mérito próprio, sem conseguir recuperar o eleitorado que perdeu nos jovens, nas periferias urbanas e no interior. Ganhar eleições com pouco mais de um quarto dos votos não é vencer, é apenas perder por menos. E quem perde por menos raramente tem força para impor condições a quem perdeu por mais, sobretudo quando precisa dele para governar.
Do outro lado restará, assim, um bloco central. Não o de 1983, nascido de uma emergência financeira e de dois partidos fortes, mas a soma de duas fraquezas. PS e PSD terão resultados tão modestos que nenhum dos seus líderes poderá reivindicar a chefia do Governo sem que o outro veja nisso uma rendição. A saída será indicar um nome exterior, escolhido precisamente por não ter perdido eleições, porque nunca as disputou. A Itália conhece bem o modelo, de Mario Monti a Mario Draghi, e conhece também o seu preço: governos competentes que, ao terminarem, deixam o terreno ainda mais livre para quem promete acabar com eles.
Peter Mair, em Ruling the Void, mostrou como os partidos se foram retirando da sociedade para se refugiarem no Estado, governando cada vez mais e representando cada vez menos. Giovanni Sartori, ao descrever o pluralismo polarizado, apontou o risco de um centro que se mantém no poder por falta de alternativa aceitável e de uma competição centrífuga que esvazia esse centro e alimenta os extremos. Portugal escapou durante décadas a ambos os diagnósticos. Está agora a aproximar-se dos dois ao mesmo tempo.
Caberá ao Presidente António José Seguro, que fez da moderação o seu programa, escolher entre dar posse a uma direita coesa ou a um centro sem rosto. Nenhuma das opções será confortável. Mas convém lembrar que, em democracia, a pergunta decisiva não é quem governa, é quem os eleitores reconhecem como seu. Um Governo de ninguém dificilmente será, por muito tempo, o Governo de todos.