O futebol profissional é um veneno?

Pedro Tadeu

Jornalista

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O futebol profissional fornece às televisões e às redes sociais uma sucessão interminável de conflitos, declarações, especulações e insultos. Tudo muito apaixonante, hipocritamente comercial e quase sempre irrelevante para as nossas vidas. A saída de Cristiano Ronaldo do estágio da seleção nacional confirma isso. 

O futebol profissional exalta o culto da vedeta. A celebração dos milhões ganhos pelos grandes futebolistas normaliza a aceitação de desigualdades extraordinárias e desproporcionadas. A notícia da Forbes que estima que Ronaldo ganhou 300 milhões de dólares, só no último ano, confirma isso. 

O futebol profissional ajuda a criar uma horda de milhões de viciados em apostas. Um relatório da Organização Mundial de Saúde, que associa esta questão a endividamento, pobreza e problemas familiares, confirma isso. 

Em Portugal, no segundo trimestre de 2026, o futebol representou 69,9% do volume das apostas desportivas online que geraram 125,1 milhões de euros de receita bruta para os seus donos.  

O futebol profissional é aproveitado por fascistas e traficantes. O facto de em 20 de janeiro de 2026 a operação Irmandade ter detido 37 suspeitos ligados aos nazis do Grupo 1143, que tem antecedentes numa fação da Juventude Leonina, por suspeitas de crimes de ódio e violência, confirma, mais uma vez, isso. Os problemas com racismo, violência organizada e tráfico de droga, que se repetem em quase todos os jogos e em todo o mundo, comprovam também essa infiltração. 

O futebol profissional é cada vez mais para ricos ou especuladores e menos para pobres ou remediados; é mais para criminosos do que para gente honrada. As negociatas deste mundo à parte ilustram isso. 

Em abril de 2026 a FIFA colocou à venda bilhetes da categoria mais cara para a final do Mundial a 10.990 dólares. As assinaturas para ver futebol na TV atingem valores cada vez mais elevados. Os bilhetes para jogos importantes também. 

Um relatório da UEFA revela que os clubes ingleses, os mais ricos do mundo, estiveram envolvidos em 52% do valor mundial das transferências deste verão. 

Segundo a FIFA, entre janeiro e o início de dezembro de 2025 os clubes pagaram 1,37 mil milhões de dólares a agentes, mais de 90% acima do ano anterior.   

Há dias uma comissão independente considerou o Manchester City responsável por graves violações financeiras (o clube recorreu), incluindo contratos fictícios que alteraram receitas e custos em mais de 900 milhões de libras.  

Em 9 de dezembro de 2025 a polícia argentina fez buscas na federação e em vários clubes numa investigação relacionada com a Sur Finanzas, suspeita de branqueamento e evasão fiscal. 

Em junho passado uma operação conjunta da polícia e da comissão anticorrupção de Hong Kong deteve 19 pessoas, incluindo treinadores e jogadores, por suspeitas relacionadas com apostas ilegais e suborno para manipular partidas locais. 

Em 2023, na operação El Dourado, feita numa academia de futebol para miúdos em Famalicão, a polícia encontrou 47 alegadas vítimas de tráfico de pessoas, incluindo 36 menores a quem tiraram os documentos de identificação. 

O futebol até já deu um prémio da paz a Donald Trump! E revelou-nos a retórica brutal de André Ventura. 

Tanta coisa que, todos os dias, confirma o veneno social em que o futebol profissional se transformou – e não, não aprofundo aqui mais casos portugueses porque, sinceramente, tenho amor à pele e o futebol, que já foi o desporto mais belo do mundo, agora mete medo... 

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