O fogo cruzado sobre a Europa irá continuar

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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Os Democratas conquistaram o Congresso e os eleitores demonstraram a vitalidade da democracia americana. A partir de janeiro de 2027, a dinâmica interna basear-se-á numa prova de forças, provavelmente sem tréguas, entre o executivo e o legislativo. Fora dos EUA, a questão central é a evolução da política externa do presidente Donald Trump. Os aliados mais próximos, os europeus em particular, continuam com fortes razões para estarem inquietos.

O Congresso vai travar Donald Trump em casa recorrendo a investigações e a eventuais processos de destituição. Não o travará no estrangeiro, onde a Constituição dá ao presidente uma significativa margem de manobra. Trump não quer ser recordado como um gestor prudente da ordem internacional. Quer ser o presidente que fez o que os outros não conseguiram. Quanto mais cercado em Washington, mais preocupado estará com a obtenção de sucessos, reais ou imaginados, na frente externa. A ambição é inscrever o nome nos livros de História.

Um acordo com Moscovo relativo à invasão russa na Ucrânia daria a Trump o protagonismo desejado, compensando o Nobel que lhe escapou. Que um tal acordo legitime conquistas russas, fragilize Kiev e exponha a Europa pesa menos do que uma fotografia tirada para registar a assinatura de uma paz desequilibrada. Vendo a Ucrânia através de Moscovo, o presidente considera-a um fruto que, sendo proibido, é olhado como apetecido, já maduro e pronto para ser apanhado: basta pressionar Kiev e os europeus para impor uma paz próxima dos termos de Putin.

A NATO e o comércio seguem a mesma lógica. A promessa da continuação do apoio à Aliança pode servir de moeda de troca nas negociações com os europeus e as tarifas como prova de força. As tarifas permanecem uma opção para o presidente dos Estados Unidos, mesmo tendo o potencial de criar conflitos com o novo Congresso. Embora a pressão americana tenha obrigado os europeus a reforçar a própria Defesa, uma coisa é exigir esforços adicionais; outra, bem diferente, é negociar a sua segurança sem eles - um risco real e inaceitável. O mesmo se aplica, com idêntica ou acrescida gravidade, a um acordo sobre a Ucrânia arquitetado sem os ucranianos.

A Europa enfrenta um fogo cruzado a duas frentes. Embora não sejam os únicos desafios externos, estes são particularmente importantes pelo impacto estratégico que podem criar. A Leste, a Rússia de Putin, uma potência revisionista e agressora, que pensa saber que pode contar com o respaldo da China, visa dividir os europeus e restaurar a sua esfera de influência, sem excluir e, até, reiteradamente ameaçar que a guerra na Ucrânia pode levar a uma conflagração total. A Oeste, gigantes tecnológicos liderados nomeadamente por Elon Musk, com fortes apoios institucionais, pretendem minar a coesão estado a estado, desmantelar a regulação europeia, incluindo possivelmente a própria União. Ambas as frentes tratam os limites democráticos e humanistas como obstáculos a remover, embora a agressão militar russa e as investidas tecnológicas, comerciais e políticas de outros sigam lógicas distintas. São ameaças muito diferentes, mas são ameaças de verdade.

Maior potência regulatória do mundo, a Europa protege dados relativos aos cidadãos e procura disciplinar a Inteligência Artificial, para que o poder tecnológico não fique à solta, sem responder perante o poder democrático. A Administração americana partilha, por seu turno, de uma agenda de desregulamentação - ecoada por Musk, entre outros, como influenciadora da Cimeira do G20, a 14 e 15 de dezembro, em Miami -, sob o argumento de que as regras europeias sufocariam a inovação face às prioridades absolutas: a energia barata, a desregulamentação e as novas tecnologias.

Importa distinguir a posição de Musk do Relatório de Draghi de setembro de 2024 intitulado assim: O Futuro da Competitividade Europeia - Uma estratégia de competitividade para a Europa. Nesse documento, Draghi apontou os custos para a competitividade e para o crescimento resultantes de um excesso de regulação. Defendeu que a questão não passa por ter menos regras, mas regras mais simples e eficazes num mercado único integrado. Musk está noutro mundo: luta por um liberalismo absoluto, uma liberdade total para o capitalismo dos tempos futuros, nomeadamente na área digital.

Trump aproxima-se de ambos os campos: em Putin vê a possibilidade de um acordo histórico, pouco lhe importando que seja uma capitulação, pondo o foco apenas no histórico, um conceito que interpreta à sua maneira; nos magnatas tecnológicos encontra aliados políticos, económicos e mediáticos. A reaproximação com Musk, depois de alguns desentendimentos, responde a interesses estritamente partilhados - financiamento eleitoral massivo, negócios de milhares de milhões, proteção face a futuras investigações do Congresso e a oposição comum a instituições reguladoras e a estados aliados democráticos tradicionais, sendo a UE um dos principais alvos. Trump irá continuar nessa trajetória e tudo poderá acontecer.

Quando o poder político e o tecnológico se alinham contra o controlo democrático, a regulação passa a ser uma questão de soberania e segurança. A resposta europeia não pode ser o regresso aos nacionalismos, terreno predileto de Moscovo e das plataformas, mas sim a ação comum com coesão em áreas estratégicas.

Num mundo moldado por potências continentais, autocracias assertivas e colossos tecnológicos, os países europeus isolados são demasiado pequenos para permanecer verdadeiramente soberanos. O reforço da soberania coletiva protege as soberanias nacionais; rejeitar aquela em nome destas acarreta o risco de se perder uma e outras.