O exemplo não se decreta

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Há decisões que definem um líder muito antes de definirem uma empresa.

Há algumas semanas, durante um encontro internacional de empresários, ouvi uma reflexão que me fez pensar. Uma fábrica atravessava um trimestre particularmente difícil. A administração preparava-se para suspender, durante alguns meses, o pagamento do prémio de desempenho aos colaboradores. Era uma medida legal, financeiramente prudente e fácil de justificar. Antes de a decisão ser aprovada, um dos administradores fez apenas uma pergunta: “Se vamos pedir este esforço às nossas equipas, estamos dispostos a abdicar, durante o mesmo período, dos nossos próprios prémios e benefícios?”

A sala ficou em silêncio.

Naquele momento deixou de estar em causa um prémio. Passou a estar em causa a autoridade moral da liderança.

A decisão acabou por ser outra. A administração renunciou primeiro aos seus incentivos e só depois pediu um esforço semelhante ao resto da organização. Meses mais tarde, dizia quem partilhou esta história, ninguém se recordava do impacto financeiro da medida. Mas todos se recordavam do exemplo.

Naquele momento confirmou-se uma convicção que fui construindo ao longo dos anos: a liderança começa muito antes dos discursos. Começa nas decisões.

Sempre que surge um novo escândalo nas manchetes, repete-se o mesmo ciclo: indignação, debate, promessas de mudança e, pouco tempo depois, o regresso à normalidade. Mudam os nomes, mudam as circunstâncias, mas permanece a mesma pergunta: porque continuamos a falhar onde mais importa – na confiança?

Talvez porque insistimos em procurar soluções apenas nas leis, nas sanções ou na fiscalização, quando o verdadeiro problema começa muito antes: na forma como se lidera e no exemplo que se dá todos os dias.

Foi precisamente essa reflexão que me levou, ao longo dos anos, a resumir a minha visão da liderança num princípio simples: o Princípio do Espelho.

Antes de tomar uma decisão importante, qualquer líder deveria fazer apenas uma pergunta: “E se todas as pessoas da minha empresa decidissem agir exatamente como eu estou prestes a agir?”

Se a resposta fortalecer a organização, avance.

Se a resposta gerar desconforto, talvez a decisão não seja a correta.

O espelho nunca avalia apenas a decisão. Revela também o líder que estamos a escolher ser.

O economista Amartya Sen, Prémio Nobel da Economia, defendeu que a economia não pode ser separada da ética. Também Peter Drucker recordava que nenhuma estratégia sobrevive a uma cultura errada. Ambos tinham razão. A confiança nunca nasce dos regulamentos; nasce do comportamento consistente de quem lidera.

Todas as organizações têm regras escritas e regras que nunca foram escritas. As primeiras estão nos regulamentos, nos códigos de conduta e nos manuais. As segundas aprendem-se simplesmente a observar quem lidera. É aí que se define aquilo que passa a ser normal dentro de uma organização: assumir um erro ou escondê-lo, cumprir uma promessa ou encontrar uma desculpa, respeitar todos ou apenas quem tem poder. Nenhum código de conduta consegue competir com o exemplo diário de um líder.

É por isso que, mais cedo ou mais tarde, todas as organizações acabam por refletir quem as lidera. A governação corporativa chama-lhe tone at the top. Eu prefiro uma expressão mais simples: as organizações tornam-se o espelho da sua liderança.

Imagino muitas vezes como seriam as nossas empresas, as nossas instituições e até o nosso país se cada decisão importante passasse, durante apenas 30 segundos, pelo Princípio do Espelho.

Provavelmente continuaríamos a precisar das mesmas regras. Mas precisaríamos de muito menos fiscalização.

Porque os líderes não são seguidos pelo que dizem. São copiados pelo que fazem.

Talvez seja essa a maior responsabilidade de quem lidera: perceber que cada decisão ensina alguém a decidir da mesma forma.

Porque, no fim, todas as organizações acabam por refletir a coragem – ou a falta dela – de quem as lidera.

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