O estranho caso de Israel

Luís Valença Pinto

General. Presidente do EuroDefense-Portugal

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É conhecida a génese do moderno Estado de Israel. Em traços muito largos tudo remonta à derrocada do Império Otomano, ao Acordo Sykes-Picot entre a França e o Reino Unido, à Declaração Balfour, ao Plano de Partição da Palestina e ao colapso do Império Britânico. Deste conjunto de circunstâncias emergiu a visão de um lar nacional para o povo judaico no território da Palestina.

Aspeto muito importante foi o sentimento da comunidade internacional na esteira das atrocidades que os judeus haviam sofrido durante a 2ª Guerra Mundial. Sentiu-se e entendeu-se que se impunha que lhes fosse proporcionada uma reparação e que isso se deveria consubstanciar no anunciado lar nacional, na Palestina, organizado em Estado onde pudessem viver em Paz e em segurança, sem por em causa a adoção, também na Palestina, de um modelo análogo para o povo palestiniano.

O moderno Estado de Israel nasceu assim. Beneficiando de um amplo apoio e simpatia internacionais. Esse sentimento foi reforçado e até romantizado, com coisas como o Exodus, os kibbutz ou a celebração dos Justos entre as Nações e com figuras como Ben Gurion ou Moshe Dayan. Nunca, porém, foram resolvidas questões essenciais, designadamente as referidas à formalização e pleno reconhecimento de um Estado palestiniano e ao estatuto de Jerusalém.

As sucessivas guerras entre israelitas e árabes agravaram as mútuas animosidades, criaram situações em que de facto Israel ocupou e tem vindo a colonizar territórios que não lhe pertencem, o que deu pretexto ao surgimento de organizações árabes de matriz terrorista. Assim se chegou onde hoje estamos. Os palestinianos reclamam o seu Estado, naturalmente na concepção original, isto é, após devolução daquilo que Israel ocupa sem legitimidade e as facções terroristas árabes invocam a injustiça da situação existente para pretensamente validarem a sua ação, pondo em causa a segurança e a estabilidade de Israel.

Têm sido muitas as Resoluções das Nações Unidas e vários os acordos (Camp David, Oslo, Abraão) tendentes a resolver o diferendo e a estabelecer a Paz. Sempre com pouco ou nenhum sucesso. Foi emergindo a ideia que não há solução para o diferendo entre israelitas e palestinianos e que tudo o que há fazer é encontrar a melhor maneira de viver com ele.

Ao longo do tempo Israel e os israelitas foram desenvolvendo um pernicioso e falso conceito de supremacia racial em relação aos árabes e aos palestinianos em particular. Para o ilustrar são muitas vezes invocados os vários casos de israelitas galardoados com o Prémio Nobel. Pena é que essa “intelligentsia”, que é real, em vez de ser brandida como fundamento de uma falsa superioridade, não seja posta ao serviço da Paz.

Israel tem o legítimo direito de existir e de ter segurança na sua existência. Mas isso fica prejudicado quando Israel se afasta da razoabilidade, quando sistematicamente se subtrai ao cumprimento de Resoluções das NU, quando constrói muros, acantonando populações, quando se esquiva a acordos globais, como sejam os da Interdição de armas químicas e de armas biológicas, ou quando não adere ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, ao mesmo tempo não reconhecendo que dispõe desse tipo de armas, sendo absolutamente certo que as tem. E fica ainda mais prejudicado quando Israel, nas suas naturais e legítimas reações, as leva a extremos completamente desproporcionados, agindo sem regra e indiscriminadamente contra as populações, as vilas e as cidades.

O que é difícil de entender é como é que isso parece não ser compreendido pela sociedade e pelas forças políticas israelitas.

O Hamas e o Hezbollah não podem ser tolerados. Mas o que se passou em Gaza e mais recentemente no Líbano, não pode igualmente ser tolerado. Nenhuma retórica de “povo eleito” o permite. Fazê-lo seria validar o preceito que levou ao Holocausto. Se há povo que dispõe de argumentos para bem compreender isto, é precisamente o povo judaico. Tal como não é legítimo nem adequado responder ao terrorismo jihadista com ações que prefiguram um certo terrorismo de Estado, ainda que com um diferente caldo religioso.

O capital de simpatia de que Israel beneficiou e que certamente continuaria a ser-lhe útil, fica assim erodido. Por culpa própria.

Mas nada é definitivo e, querendo, os israelitas podem curar Israel, devolvendo o seu país à família dos Estados respeitadores do Direito Internacional, da universalidade dos Direitos Humanos e da ideia de Paz.

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