Os países árabes atacados pelo Irão, e não só as bases americanas que alojam, têm até agora evitado uma resposta, sobretudo presos no dilema de entrar em guerra poder parecer um apoio a Israel, que está tão ou mais envolvido do que os Estados Unidos no conflito iniciado no sábado, último dia de fevereiro. Mas vários de entre eles, a começar pela Arábia Saudita, investiram fortemente em armamento nos anos recentes e podem causar sérios danos ao Irão. Também os Emirados Árabes Unidos possuem meios de retaliação contra o Irão, e a ameaça de que mais cedo ou mais tarde virá uma resposta foi já feita.É de longa data a rivalidade entre o Irão, de matriz persa, e os vizinhos árabes. E a isso soma-se o choque milenar de xiitas contra sunitas. Mas a Revolução Islâmica de 1979 veio exacerbar essa rivalidade, pois a deposição do xá trouxe uma república iraniana decidida a exportar a sua visão messiânica do islão por todo o Médio Oriente, algo ameaçador para as monarquias do Golfo Pérsico (ou Arábico), sobretudo aquelas com minorias xiitas, como a Arábia Saudita, ou até com maioria xiita, como o Bahrein, mas com a família real a ser sunita. Não admira, pois, que tenham apoiado o Iraque de Saddam Hussein, embora republicano e panarabista, quando atacou o Irão dos ayatollas em 1980. O próprio Iraque, que tinha disputas territoriais com o Irão, atacou também por causa dos revolucionários iranianos estarem a tentar aliciar os xiitas do vizinho, maioritários, mas subjugados por uma elite sunita. Curiosamente, nos oito anos de guerra, o nacionalismo iraquiano conseguiu manter os árabes xiitas a combater contra os persas xiitas, o que, porém, não impediu que o Irão conseguisse com o tempo tornar-se patrono de algumas comunidades árabes xiitas, como as do Líbano e do Iémen, patrocinando grupos como o Hezbollah e os Hutis.Sem surpresa, o Iraque de Saddam veio também a tornar-se inimigo das monarquias, invadindo o Kuwait, mas o Irão manteve-se até hoje como o grande inimigo. E até a causa palestiniana os ayatollas usaram para denegrir os rivais árabes, pois estes foram pouco a pouco estabelecendo relações com Israel, os famosos Acordos de Abraão, que os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein subscreveram e outros ponderam vir a assinar sob pressão americana.Perante as sanções económicas crónicas, por múltiplas razões, incluindo as ambições de ter a bomba nuclear, o Irão dos ayatollas nunca conseguiu usar todo o potencial da riqueza petrolífera para se desenvolver. Um grande contraste com a prosperidade crescente dos Emirados Árabes Unidos ou do Qatar, países que até conseguiram tornar-se destinos turísticos. Uma certa inveja, e também crítica feroz por excesso de ocidentalização, e ainda represália por apoiarem os Estados Unidos, ou a soma de tudo isto, poderão também ter estado na origem dos ataques agora do Irão às monarquias do Golfo, depois de atacado por americanos e israelitas.Política de terra queimada ou estratégia para forçar os árabes a pressionar os Estados Unidos a parar os ataques e voltar às negociações, os mísseis e drones iranianos contra os vizinhos arriscam a ter garantido ao Irão, sob a atual liderança dos ayatollas ou sob uma futura, uma duradoura hostilidade que não lhe trará nada de bom a curto e médio prazo. E certamente faz os monarcas árabes verem o Estado Judaico como um parceiro de maior confiança do que o grande vizinho xiita, cuja população de 90 milhões é superior à soma dos países da Península Arábica.