Escrevo invadido pela perplexidade imanente a quem olha para o seu país e não o consegue perceber.
Por um lado, o preço da habitação, por aquisição ou arrendamento, não para de aumentar e alcança valores que o rendimento médio dos portugueses não comporta.
Por outro, quando os combustíveis atingem valores máximos inéditos em Portugal, a senhora Ministra da Energia vem informar que o consumo de combustíveis tem vindo a aumentar. Acréscimo tão significativo que aquela governante apela mesmo à necessidade de reduzir o consumo.
Ora, os dados oficiais da segurança social dizem-nos o seguinte quanto à distribuição dos rendimentos do trabalho no primeiro trimestre de 2026:
Trabalhadores Salário líquido mensal %
2,5 milhões < 1000€ 50%
1,8 milhões 1000€ a 2000€ 36%
575 mil 2000€ a 3000€ 11,5%
125 mil >3000€ 2,5%
Mas, se esta é a realidade dos cinco milhões de trabalhadores, como é a realidade dos pensionistas?
Portugal terá cerca de 2,5 milhões de pensionistas por velhice.
Alguns dados caracterizadores dos seus rendimentos:
· Metade de todos os pensionistas recebe uma pensão de reforma inferior a 426 euros/mês;
· O valor médio das pensões situa-se nos 645 euros/mês;
· O valor médio das pensões fixadas agora situa-se nos 1000 euros/mês, ou seja, será o seu rendimento para os 20 anos que se seguem.
Já quanto ao pagamento de IRS, parece que se seis milhões de agregados familiares entregam declaração de IRS, cerca de 2,3 milhões não pagam o imposto por não atingirem o valor mínimo de rendimento que obriga a tributação.
Com estes rendimentos conhecidos, repito, conhecidos, como é que em Portugal se transacionam casas, automóveis ou pacotes de férias?
Como é que o consumo de combustíveis aumenta?
Como é que os restaurantes e supermercados estão cheios?
Como é que se constituem patrimónios significativos?
Será que vivemos numa ficção fiscal? Isto é, conseguimos determinar quanto dos rendimentos dos portugueses não é declarado e tributado?
Será que temos uma economia subterrânea que já vai para além dos oitenta mil milhões de euros anuais calculados pela Universidade do Porto?
Ou acreditamos que os portugueses vivem de rendimentos de capitais, tributados a taxas liberatórias …
Entre andar a fazer projecções especulativas para os próximos cinquenta anos e conhecer a realidade actual, talvez seja mais avisado conhecer com rigor quantitativo o país em que vivemos.
Sem isso ficaremos entre a perplexidade e políticas públicas que assentam num vago imediatismo eleitoral, mas que, de estrutural, nada mudam.