Na sua última intervenção na Câmara dos Comuns, o PM britânico protagonizou um momento cada vez mais raro na política contemporânea. A líder da oposição reconheceu publicamente a sua dedicação ao serviço público e o agora ex-PM agradeceu o apoio que recebeu em momentos pessoais difíceis. Sem deixarem de ser adversários, mostraram que o respeito mútuo fortalece a democracia.Também em Portugal, ainda que num contexto de maior fragmentação partidária, existe um espaço constitucional partilhado por vários partidos. É esse espaço comum, e não a proximidade ideológica, que deveria organizar o debate público.Uma democracia moderna não se resume a eleições periódicas. Assenta nos pilares inseparáveis dos direitos fundamentais, Estado de Direito, eleições livres e separação de poderes. O critério para fazer parte do núcleo da democracia não é o lugar no espetro esquerda-direita, mas a aceitação das regras do jogo: alternância no poder, independência dos tribunais, liberdade de expressão, rejeição da violência política e reconhecimento de que todas as pessoas são iguais em dignidade.No Parlamento português, os partidos entre o Livre e a Iniciativa Liberal partilham, em geral, uma conceção da competição democrática como disputa entre projetos alternativos. Divergem de forma substantiva quanto ao papel do Estado e do mercado, e à extensão dos direitos económicos, sociais e de identidade, mas debatem dentro do mesmo quadro constitucional.Já o PCP e o Bloco de Esquerda tendem a interpretar a vida política sobretudo à luz do conflito entre trabalho e capital, numa leitura que divide a sociedade entre “uns” e “outros”, mas que não questiona o funcionamento das instituições.O Chega, por seu turno, e além de construir a sua mundovisão no confronto entre quem cá nasceu e quem veio de fora, tem posto em causa elementos mais fundamentais desse quadro. Em junho de 2026, o seu presidente anunciou que, fosse primeiro-ministro, instruiria o Estado a não pagar uma indemnização judicialmente determinada a José Sócrates, mesmo esgotados todos os recursos, defendendo que “há momentos” em que a Justiça se deve sobrepor à lei. Goste-se ou não do antigo PM, são o Estado de Direito e a separação de poderes que ficam em causa.É precisamente nesse quadro alargado de aceitação das instituições que, quando os partidos democráticos deixam de dialogar, perde-se a capacidade de construir consensos duradouros em matérias que exigem continuidade além de um ciclo eleitoral , como a Defesa, Justiça, Educação, Saúde, Política Externa ou Finanças Públicas. Não se trata de eliminar a alternância, mas de garantir que ela não signifique recomeçar sempre do zero.Portugal beneficiaria de mecanismos institucionais de concertação interpartidária, ou pactos de regime, negociados com transparência e horizonte plurianual sobre um número limitado de prioridades nacionais. Esses acordos não substituem a competição eleitoral, mas criam um chão comum sobre o qual ela pode decorrer com maior estabilidade.Num tempo em que a crispação é recompensada e a moderação confundida com fraqueza, a maior demonstração de confiança nas próprias convicções é reconhecer que quem partilha os princípios da democracia não é um inimigo a derrotar, mas um adversário com quem o diálogo é inevitável. O verdadeiro teste da maturidade de uma democracia está na forma como os adversários se respeitam e cooperam quando o interesse nacional o exige.