O “dilema ético” dos programas de investigação televisiva

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Existe um “modelo de informação” que opera à margem dos princípios deontológicos, nos horários nobres da televisão portuguesa. Um modelo em que juristas, autoproclamados investigadores e pseudojornalistas constroem narrativas sensacionalistas, que transformam meias-verdades de uma das partes em certezas absolutas e nomeiam aos olhos da opinião pública malfeitores, antes mesmo de qualquer tribunal apreciar os casos (quando existem).

O objetivo não é informar, nem fazer justiça: é fabricar audiências, custe o que custar, à custa de quem tiver a infelicidade de ser vítima da lógica implacável das audiências que tudo justifica.

O esquema é simples e muito eficaz: encontra-se um “caso” com potencial mediático, identifica-se uma vítima cuja versão seja emocionalmente apelativa e constroi-se em torno dela uma narrativa avassaladora. Não interessa verificar, confrontar ou contextualizar. O que importa é ter uma história que prenda o espectador ao ecrã durante os intervalos publicitários. A verdade, essa abstração inconveniente, pode esperar, ou, simplesmente nunca chegar.

Juristas apelidados de especialistas em casos mediáticos alimentam programas televisivos com dossiers, nos quais os factos e interpretações se confundem deliberadamente. Esses mesmos programas concedem-lhes tempo de antena generoso, transformando-os em cruzados da justiça popular. Em troca, ganham notoriedade, novos clientes e o poder de pressionar o sistema judicial através da opinião pública.

Os visados nestas operações, frequentemente sem direito de resposta efetivo ou confrontados com acusações em direto, tornam-se alvos de uma campanha de destruição reputacional pré-orquestrada. São assediados, perseguidos e filmados sem consentimento. As suas vidas privadas são expostas perante milhões de espectadores. Tudo em nome do “direito à informação” e do “interesse público”.

Mas há um nível ainda mais preocupante nesta engrenagem: a existência de grupos organizados de pseudojornalistas que operam na sombra do jornalismo legítimo. Apresentam-se como profissionais credenciados, ameaçam com exposição televisiva, acenam com contactos em Comissões Parlamentares inventadas. O objetivo é simples: extorquir cedências, acordos ou silêncio das suas vítimas através da pressão da ameaça mediática.

O aspeto mais inquietante deste fenómeno não são estes aproveitadores individuais do sistema: esses sempre existiram em qualquer profissão. O que verdadeiramente assusta é a cumplicidade institucional. É impossível acreditar que as direções dos canais televisivos desconheçam estas práticas. Ao invés de lhes por cobro, optam pelo silêncio cúmplice. Afinal, estes programas geram receitas publicitárias significativas. Criam “momentos televisivos” que depois alimentam dias de comentário nas redes sociais e noutros programas. São, na linguagem empresarial, “ativos rentáveis”. Que importa se pelo caminho destroem reputações, famílias e a própria credibilidade do jornalismo?

A deontologia profissional de todos os envolvidos estabelece princípios claros: rigor, isenção, contraditório, presunção de inocência, respeito pela dignidade humana. Princípios obliterados pelas audiências em jogo. O público, esse, vai sendo treinado para consumir indignação pré-fabricada, para substituir o pensamento crítico pela emoção imediata, para aceitar que “justiça” é aquilo que passa na televisão à noite.

E quando a realidade contradiz a narrativa televisiva, quando tribunais absolvem aqueles que já foram condenados no ecrã e que viram as suas vidas pessoais, familiares e profissionais destruídas, não é a narrativa que é questionada. É o sistema judicial que é acusado de falhar. Este “modelo de informação” contamina a democracia e corrompe um dos seus pilares fundamentais: a informação livre e rigorosa.

Quando o jornalismo se transforma em entretenimento sensacionalista travestido de investigação, quando juristas usam os media como tribunais ad hoc com condenações pré-feitas, quando grupos organizados podem chantagear cidadãos com ameaças de exposição mediática, não estamos perante excesso de liberdade de imprensa. Estamos perante algo muito mais grave que exige uma resposta séria e firme.

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