O detergente da direita

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”Que dia lindo!”, publicou nas redes sociais Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e pré-candidata ao Senado, como legenda a uma fotografia de um nascer do sol… com uma embalagem de detergente na frente. 

Michelle foi só a última personalidade da extrema-direita a aderir a uma campanha a favor dos detergentes Ypê, que teve lotes retirados de circulação pela agência de vigilância sanitária brasileira, a Anvisa, por risco de contaminação. 

Como os donos da Ypê são doadores de campanha de Jair Bolsonaro e a Anvisa é estatal, os apoiantes do ex-presidente já decidiram: é complô. Um bolsonarista produziu até uma imagem em IA de um homem a lavar o mapa do Brasil com Ypê. Outro decidiu limpar um frango depenado na cozinha de casa com o detergente.  

“Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com essa empresa 100% brasileira. Vamos aos supermercados comprar produtos Ypê, quem tem produtos Ypê publica no Instagram”, disparou o coronel Mello Araújo, vice-prefeito bolsonarista da cidade de São Paulo, ex-polícia militar e defensor de abordagens diferentes a moradores de bairros ricos e a moradores de bairros pobres.  

A extrema-direita, aliás, anda obcecada com marcas: lojas como Havan e Riachuelo, restaurantes como Coco Bambu e Madero e ginásios como Smart Fit ou Bio Ritmo, todos com líderes alinhados ao bolsonarismo, também são aconselhados pela rede conservadora de influencers.

Entretanto, boicota muito: num anúncio de dezembro passado das Havaianas, que exporta para 106 países e vende 250 milhões de pares por ano, a atriz Fernanda Torres, rosto da campanha, diz “desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito”. “Não é nada contra a sorte. O que eu desejo é que você comece o ano com os dois pés (...) vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés!”.

Foi o mote para uma discussão, literalmente, rasteira: não entrar com o “pé direito”, segundo um grupo de deputados, incluindo Eduardo Bolsonaro, que se filmou a atirar as havaianas dele para o lixo, era uma mensagem subliminar de apoio à esquerda em ano de eleições.

Em 2023, Felipe Neto, influencer crítico do bolsonarismo, fez publicidade à marca de chocolates Bis. Resultado: influencers de extrema-direita aconselharam a turba a deitar fora os Bis que tinham em casa e a fotografar-se a comer chocolates da concorrente Kit Kat. Mas quando alguém recordou uma campanha anterior muito woke da Kit Kat, com direito a beijo gay e tudo, os bolsonaristas ficaram perdidos.

Os cosméticos da Avon, marca simpática à agenda progressista, e os leites da Piracanjuba, empresa que escolheu a (supostamente) lulista Ivete Sangalo para a promover, também foram alvo. 

E até a Magazine Luiza, popular loja de venda a retalho, ficou em 2020 na mira de deputados da extrema-direita depois de ter decidido fazer um programa de formação exclusivamente para estagiários negros. “Racismo”, acusaram dois deputados pró-Bolsonaro.

No Brasil, a extrema-direita faz lavagem cerebral aos seus acólitos – e, pelos vistos, com um detergente contaminado. 

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