O desafio de Passos ao Governo

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Pedro Passos Coelho não é apenas mais um militante do PSD. Quando fala, é ouvido; quando se cala, o silêncio adquire significado político. Num país habituado a dirigentes prolixos, mas pouco inclinados a correr riscos ou a assumir decisões impopulares, Passos destacou-se sempre pela frontalidade e pela disposição para contrariar o espírito do tempo. A isso junta um estilo de vida frugal e discreto, distinto do de outros ex-governantes, que alimenta a ideia de um líder providencial, capaz de regressar quando a pátria estiver em apuros. Não como um D. Sebastião envolto em nevoeiro, mas antes como uma espécie de Cincinato moderno, um símbolo de humildade, dever cívico e ausência de ambição pessoal.

Esta mística em torno da sua pessoa, construída ao longo de anos, explica por que motivo, uma década após deixar São Bento, Passos Coelho continua a ser visto como o líder natural da direita portuguesa. Nem Luís Montenegro, que reconduziu o PSD ao poder, nem André Ventura, que alcançou 33% nas presidenciais, parecem ainda capazes de disputar esse lugar, mesmo que a memória do seu Governo se vá esbatendo com o tempo.

O fenómeno ficou evidente nas recentes eleições presidenciais: os três candidatos da direita procuraram o seu apoio, reivindicando a herança política que dele acreditam descender. Até Marques Mendes, com quem Passos tem menos afinidades ideológicas, teria recebido com entusiasmo uma palavra de apoio. Mas Passos optou pelo silêncio. E, ao não endossar Marques Mendes, Cotrim de Figueiredo ou Ventura, evitou alienar qualquer segmento do eleitorado de direita que, num futuro incerto, poderá voltar a ser decisivo caso deseje regressar à vida política ativa.

"O maior adversário do Governo no seu campo político não é Passos, que já demonstrou ter tempo e paciência, mas sim as suas próprias fragilidades. O Governo terá de revelar um forte ímpeto reformista.”
"O maior adversário do Governo no seu campo político não é Passos, que já demonstrou ter tempo e paciência, mas sim as suas próprias fragilidades. O Governo terá de revelar um forte ímpeto reformista.”José Coelho / Lusa

Isto significa que uma eventual disputa da liderança do PSD contra Montenegro seria um passeio no parque? Tudo indica que não. Montenegro tem consolidado a sua posição interna e não surpreende que a resposta às declarações de Passos tenha sido dada por Hugo Soares, o homem-forte do aparelho do PSD, numa entrevista ao Público. Porém, o maior adversário do Governo no seu campo político não é Passos, que já demonstrou ter tempo e paciência, mas sim as suas próprias fragilidades.

O Executivo da AD dispõe, na melhor das hipóteses, de três anos para provar o que vale, dependendo de entendimentos com um PS, que não deseja eleições antecipadas, e de acordos pontuais com o Chega. Para já, o bom desempenho económico e orçamental tem-lhe dado algum fôlego. E, apesar das polémicas, a escolha de Luís Neves, ex-diretor Nacional da PJ, para a Administração Interna poderá reforçar a capacidade do Governo para enfrentar o discurso do Chega em matérias como imigração, criminalidade e resposta a emergências e catástrofes.

Mas nada disto bastará se o Governo não revelar um verdadeiro impulso reformista, algo que, até agora, não se tornou plenamente visível, em parte devido ao ciclo eleitoral contínuo. Quatro áreas serão decisivas para o seu sucesso: recuperar a capacidade de resposta do SNS; rever a Lei Laboral, dinamizando o mercado de trabalho e criando oportunidades para os jovens; reformar a Administração Pública; e, por fim, enfrentar de forma estrutural a crise da habitação, que é talvez o maior problema que os cidadãos comuns enfrentam atualmente.

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