Temos por hábito usar o mar como referência de elemento natural que nos une a todos, povos que habitam em lugares diferentes e distantes de um mesmo planeta. Foi por ele que os portugueses partiram à descoberta, para “dar novos mundos ao mundo”, e somos país banhado por mar, o que deverá explicar uma série de ligações emocionais que temos com o Oceano.
Nos tempos que correm e, sobretudo, depois da pandemia que nos trancou a todos em casa, temos tido alguma dificuldade em praticar isto da união. Tal como em todos os ciclos de crise previstos pelos historiadores Strauss e Howe, na sua teoria The Fourth Turning – ou A Quarta Vaga, numa tradução livre – estamos mais individualistas, o mundo treme perante ameaças diárias à paz conquistada nas últimas décadas, as convulsões sociais são constantes e aquilo que nos afasta parece ser muito maior do que aquilo que nos une.
O que não é, necessariamente, verdade, mas o medo, a incerteza e o inevitável cansaço por tantas contrariedades seguidas trouxeram-nos até aqui. Temos dificuldade em encontrar no outro um semelhante, apesar de sabermos, todos, de cor, o artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.”
Temos, também, tido mais dificuldade em sentir empatia, angústia e comoção, porque as tragédias (sejam guerras, eventos climáticos ou acidentes) se têm sucedido com tanta rapidez que estamos a sofrer daquilo a que os especialistas chamam “entorpecimento psicológico”.
Quem deu nome a esta sensação foi o psiquiatra americano Robert Jay Lifton, que fez uma investigação com os sobreviventes da bomba atómica largada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima em 1945, e que relatou que estes acabaram por ficar emocionalmente bloqueados como forma de resistência às inúmeras mortes a que foram obrigados a assistir. Muitos outros psicólogos e psiquiatras a utilizaram desde então, para explicar esta sensação de indiferença que parece instalar-se quando somos confrontados com demasiado sofrimento – é um mecanismo de defesa emocional, que, de forma muito simplista, nos ajuda a não sucumbir de dor.
Aliás, esta espécie de adormecimento é visível na nossa reação a catástrofes recentes: sentimo-nos, genericamente, mais impactados pelo sismo na Venezuela do que pelo sismo que abalou a Colômbia, para usar um exemplo muito próximo. Já quase não falamos das guerras no Irão e na Ucrânia em conversas informais – apesar de elas continuarem a ser reportadas – e sentimos, até, uma espécie de cansaço que envolve tudo o que são acontecimentos mais dramáticos e infelizes.
Não deixa, por isso, de ser relevante aquilo que aconteceu ontem. Mais de um século depois do último eclipse total visível em Portugal, cerca de 980 milhões de pessoas – qualquer coisa como 12% da população mundial, estava em áreas com alguma visibilidade deste fenómeno. De olhos postos no céu, que é precisamente o mesmo para todos os que habitam atualmente o planeta. Apesar de “apenas” 15 milhões se encontrarem na região onde foi possível acompanhar o eclipse solar total, a verdade é que o assunto encheu páginas de jornais, de internet, de redes sociais, conversas formais e informais e, obviamente, tempos de antena em rádios e televisões.
João Calvino tornou célebre a frase Post tenebras lux – depois das trevas, vem a luz. Tornou-se uma espécie de lema da Reforma Protestante e simbolizava, então, a esperança, a superação de momentos difíceis (...). Quem sabe se o eclipse que tivemos o privilégio de testemunhar esta quarta-feira não abre, também, lugar a um tempo em que estamos todos mais dispostos a encontrar muito mais pontos de união do que de discórdia?"
Durante alguns dias – os que antecederam o eclipse e aquele em que efetivamente aconteceu – milhões de humanos olharam para um tema comum com o mesmo entusiasmo, objetivo e curiosidade. Um fenómeno que não durou mais de 2 minutos teve a capacidade de nos juntar, e de nos fazer esquecer, que vivemos nestes tempos estranhos em que teimamos em não encontrar no outro um motivo de alegria, de esperança e de comunhão.
João Calvino tornou célebre a frase Post tenebras lux – depois das trevas, vem a luz. Tornou-se uma espécie de lema da Reforma Protestante e simbolizava, então, a esperança, a superação de momentos difíceis e a vitória da verdade e da sabedoria sobre a ignorância ou o sofrimento. Quem sabe se o eclipse que tivemos o privilégio de testemunhar esta quarta-feira não abre, também, lugar a um tempo em que estamos todos mais dispostos a encontrar muito mais pontos de união do que de discórdia? Quem sabe se não é este céu que nos une?