O céu que nos une

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Temos por hábito usar o mar como referência de elemento natural que nos une a todos, povos que habitam em lugares diferentes e distantes de um mesmo planeta. Foi por ele que os portugueses partiram à descoberta, para “dar novos mundos ao mundo”, e somos país banhado por mar, o que deverá explicar uma série de ligações emocionais que temos com o Oceano.

Nos tempos que correm e, sobretudo, depois da pandemia que nos trancou a todos em casa, temos tido alguma dificuldade em praticar isto da união. Tal como em todos os ciclos de crise previstos pelos historiadores Strauss e Howe, na sua teoria The Fourth Turning – ou A Quarta Vaga, numa tradução livre – estamos mais individualistas, o mundo treme perante ameaças diárias à paz conquistada nas últimas décadas, as convulsões sociais são constantes e aquilo que nos afasta parece ser muito maior do que aquilo que nos une.

O que não é, necessariamente, verdade, mas o medo, a incerteza e o inevitável cansaço por tantas contrariedades seguidas trouxeram-nos até aqui. Temos dificuldade em encontrar no outro um semelhante, apesar de sabermos, todos, de cor, o artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.”

"Não deixa, por isso, de ser relevante aquilo que aconteceu ontem. Mais de um século depois do último eclipse total visível em Portugal, cerca de 980 milhões de pessoas – qualquer coisa como 12% da população mundial, estava em áreas com alguma visibilidade deste fenómeno. De olhos postos no céu..."
"Não deixa, por isso, de ser relevante aquilo que aconteceu ontem. Mais de um século depois do último eclipse total visível em Portugal, cerca de 980 milhões de pessoas – qualquer coisa como 12% da população mundial, estava em áreas com alguma visibilidade deste fenómeno. De olhos postos no céu..." FOTO: Sergio Perez / EPA

Temos, também, tido mais dificuldade em sentir empatia, angústia e comoção, porque as tragédias (sejam guerras, eventos climáticos ou acidentes) se têm sucedido com tanta rapidez que estamos a sofrer daquilo a que os especialistas chamam “entorpecimento psicológico”.

Quem deu nome a esta sensação foi o psiquiatra americano Robert Jay Lifton, que fez uma investigação com os sobreviventes da bomba atómica largada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima em 1945, e que relatou que estes acabaram por ficar emocionalmente bloqueados como forma de resistência às inúmeras mortes a que foram obrigados a assistir. Muitos outros psicólogos e psiquiatras a utilizaram desde então, para explicar esta sensação de indiferença que parece instalar-se quando somos confrontados com demasiado sofrimento – é um mecanismo de defesa emocional, que, de forma muito simplista, nos ajuda a não sucumbir de dor.

Aliás, esta espécie de adormecimento é visível na nossa reação a catástrofes recentes: sentimo-nos, genericamente, mais impactados pelo sismo na Venezuela do que pelo sismo que abalou a Colômbia, para usar um exemplo muito próximo. Já quase não falamos das guerras no Irão e na Ucrânia em conversas informais – apesar de elas continuarem a ser reportadas – e sentimos, até, uma espécie de cansaço que envolve tudo o que são acontecimentos mais dramáticos e infelizes.

Não deixa, por isso, de ser relevante aquilo que aconteceu ontem. Mais de um século depois do último eclipse total visível em Portugal, cerca de 980 milhões de pessoas – qualquer coisa como 12% da população mundial, estava em áreas com alguma visibilidade deste fenómeno. De olhos postos no céu, que é precisamente o mesmo para todos os que habitam atualmente o planeta. Apesar de “apenas” 15 milhões se encontrarem na região onde foi possível acompanhar o eclipse solar total, a verdade é que o assunto encheu páginas de jornais, de internet, de redes sociais, conversas formais e informais e, obviamente, tempos de antena em rádios e televisões.

João Calvino tornou célebre a frase Post tenebras lux – depois das trevas, vem a luz. Tornou-se uma espécie de lema da Reforma Protestante e simbolizava, então, a esperança, a superação de momentos difíceis (...). Quem sabe se o eclipse que tivemos o privilégio de testemunhar esta quarta-feira não abre, também, lugar a um tempo em que estamos todos mais dispostos a encontrar muito mais pontos de união do que de discórdia?"

Durante alguns dias – os que antecederam o eclipse e aquele em que efetivamente aconteceu – milhões de humanos olharam para um tema comum com o mesmo entusiasmo, objetivo e curiosidade. Um fenómeno que não durou mais de 2 minutos teve a capacidade de nos juntar, e de nos fazer esquecer, que vivemos nestes tempos estranhos em que teimamos em não encontrar no outro um motivo de alegria, de esperança e de comunhão.

João Calvino tornou célebre a frase Post tenebras lux – depois das trevas, vem a luz. Tornou-se uma espécie de lema da Reforma Protestante e simbolizava, então, a esperança, a superação de momentos difíceis e a vitória da verdade e da sabedoria sobre a ignorância ou o sofrimento. Quem sabe se o eclipse que tivemos o privilégio de testemunhar esta quarta-feira não abre, também, lugar a um tempo em que estamos todos mais dispostos a encontrar muito mais pontos de união do que de discórdia? Quem sabe se não é este céu que nos une?

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