O regresso de Bill Maher ao seu espaço televisivo norte-americano, esta semana, não trouxe apenas a sua acidez habitual. Num dos mais longos monólogos de que há memória, o influente crítico e humorista de centro-esquerda fez um diagnóstico certeiro que o centro político ocidental (a começar pela maioria dos media tradicionais) insiste em varrer para debaixo do tapete. Maher abre com o aviso: a acusação de Donald Trump sobre a ala radical do Partido Democrata (os Democratic Socialists of America - DSA) ser comunistas "não é uma mentira". E depois passa os oito minutos seguintes a explicar, factualmente, porquê.. Isto deveria fazer estremecer muito mais do que Washington. O que antes parecia folclore universitário tornou‑se, em influentes círculos da DSA, programa político explícito: figuras com assento parlamentar ou em vias de o conquistar defendem a apreensão dos meios de produção, a expropriação da propriedade privada, a abolição da polícia, das prisões e das fronteiras. Não é a posição oficial da organização nacional (pelo menos ainda…), mas é hoje uma corrente influente dentro do partido – e é factual que estas propostas são comunismo clássico.Este fenómeno não é um mero acidente de percurso, nem uma excentricidade passageira: é o produto de um laboratório ideológico que já teve a sua experiência-piloto na Califórnia pós-governador Schwarzenegger. Desde 2011, sob governos democratas de maioria absoluta, a Califórnia – ainda hoje a maior economia estadual dos EUA – tornou‑se uma contradição monumental. A galinha dos ovos de ouro de Silicon Valley continua a gerar riqueza colossal, permitindo ao governo local financiar um dirigismo fiscal e regulatório sufocante. Mas o custo de vida obsceno, a crise habitacional alimentada por dogmas ambientais e a tributação punitiva dos rendimentos de topo empurram a classe média para um êxodo histórico rumo a estados com maior liberdade económica.Os EUA são uma federação, o que torna difícil a “californização” de todo o país. Ainda assim, correntes internas da DSA defendem a substituição de pilares fundamentais da atual arquitetura constitucional, eliminando mecanismos de soberania que hoje funcionam como válvulas de escape. Num cenário hipotético em que políticas semelhantes fossem impostas a nível federal, a migração interna deixaria de ser uma saída possível.Assim, sem o Texas ou a Flórida para onde fugir dentro de portas, o capital financeiro e a inovação tecnológica simplesmente emigrariam para Singapura ou Zurique (enquanto pudessem...). Pior! A classe média trabalhadora ficaria encurralada num moedor de carne económico, esmagada pela inflação de serviços, pela dependência compulsiva de subsídios e pela erosão violenta do seu poder de compra. As Finanças Públicas norte-americanas passariam a viver numa montanha-russa delirante, balançando entre os festejos dos anos de boom bolsista e o descalabro de crises de dívida soberana.Não é um delírio. Claro que, com o grau de polarização política e social que existe nos EUA, não é impossível imaginar cenários de violência política grave – ou mesmo o país entrar em guerra civil, o que, do ponto de vista económico global, seria um desastre de dimensões semelhantes. Mas imaginemos que tal não aconteceria e a transição para um regime altamente regulado se dava de forma pacífica. Vimos colapsos económicos semelhantes sempre que países adotaram políticas de hiper-regulação, estatismo extremo ou modelos socialistas de controlo centralizado: Venezuela, Cuba, a China de Mao, o Camboja dos Khmers Vermelhos... É sempre assim: quando o Estado tenta planificar tudo, o resultado é sempre o mesmo – inflação, escassez, fuga de capitais e empobrecimento acelerado.A Europa, como sempre, olha para os sobressaltos americanos com a superioridade moral de quem assiste a um circo distante. Alguns analistas europeus, na sua proverbial ingenuidade, até anteveem uma oportunidade: imaginam que uma América empobrecida e hiper-regulada perderia a sua atratividade para os cérebros e fundos europeus. É um cálculo não só errado, como suicida.A relação transatlântica não é uma abstração académica ou uma frase bonita. Continua a ser o oxigénio da economia global e, acima de tudo, o destino do próprio capital europeu. A Europa não é espectadora: tem mais de 3,5 biliões de dólares investidos diretamente nos EUA e uma exposição financeira total que ultrapassa os 10 biliões de dólares, segundo os relatórios transatlânticos mais recentes. Cerca de cinco milhões de empregos americanos dependem de filiais de empresas europeias. A saúde de Wall Street e o poder de compra do consumidor americano são, literalmente, o garante dos fundos de pensões e do tecido empresarial europeu.Uma América estagflacionada, entretida a gerir as suas fraturas sociais e a sufocar o seu setor privado sob uma utopia fiscalmente punitiva, significa desvalorizar triliões de capital europeu e fechar a torneira ao maior comprador do planeta. Como se isto não bastasse, o aumento dos custos operacionais das gigantes tecnológicas americanas seria prontamente faturado aos utilizadores globais, encarecendo ainda mais a já trôpega (para ser simpático…) transição digital europeia.Mas o rombo mais doloroso seria geopolítico. Um governo em Washington acorrentado a défices estruturais ligados a uma gigantesca máquina de subsidiação interna fechará a carteira aos seus compromissos internacionais. O risco de incumprimento tornar-se-ia real – uma especialidade histórica de qualquer experiência socialista. A capacidade de emitir dólares não é uma blindagem eterna perante mercados que, a dada altura, recusarão simplesmente aceitá-lo como moeda de referência.A Europa seria subitamente acordada do seu sonho dourado, forçada a pagar na totalidade a fatura da sua Defesa e Segurança – precisamente no momento em que a sua economia estaria a sangrar com a perda do mercado americano.Quando o velho dogma comunista regressa com roupagem woke ao centro da civilização liberal (no sentido clássico e verdadeiro do termo), a Europa não pode continuar a comportar‑se como espectadora entretida. O dinamismo da economia americana não é um luxo dos americanos: é a boia de salvação do Ocidente. Se o motor falhar, o choque não abala apenas Washington – arrasta o continente europeu para o abismo. A experiência histórica é indesmentível: onde o comunismo se tentou impor, trouxe fome, miséria e morte.