O clero secular: como a fé cega nos ‘peritos’ substituiu a democracia (e a responsabilidade)

Na era do acesso instantâneo aos dados, a subserviência a comités técnicos não é ignorância: é uma estratégia de cobardia política e negligência mediática para impor escolhas ideológicas sem assumir responsabilidades.
Ricardo Simões Ferreira

Editor Executivo Adjunto do Diário de Notícias e Diretor Executivo do Motor24

Publicado a

Vivemos no momento de menor fricção informacional da História. Em escassos segundos, qualquer cidadão ou decisor acede a relatórios oficiais, bases de dados e estudos de ponta – hoje sintetizáveis por IA em tempo real. No entanto, o debate público capitulou perante uma passividade intelectual quase medieval, curvando-se após cada conferência de imprensa perante o “especialista” de serviço, repetido ad infinitum nas redes sociais pelos seus devotos (consoante a barricada ideológica em que se situem).

Há ainda outra receita mais retorcida: encomendam-se estudos técnicos aprofundados que, quando não concluem o que “dá jeito”, são atirados para a gaveta e envenenados no espaço público por ‘peritos’ de serviço capazes de pôr em causa até a mais elementar aritmética.

Todo este processo assenta numa fraude lógica. Como David Hume demonstrou, a ciência empírica limita-se a descrever a realidade e a projetar probabilidades (“se alterarmos X, Y varia Z%”). É estruturalmente incapaz de ditar o que deve ser feito ou que sacrifícios morais e económicos se justificam em seu nome. Como Thomas Sowell insiste, em políticas públicas não existem soluções puras, apenas compromissos dolorosos (trade-offs). Ao clamarem que “a ciência manda fechar a economia”, “aumentar impostos” ou alterar fronteiras, os governos praticam puro contrabando ideológico: usam o dogma TINA – There Is No Alternative – para mascarar opções políticas e fugir ao escrutínio eleitoral.

A isto soma-se a miopia epistemológica diagnosticada por Friedrich Hayek: nenhum comité centralizado domina o conhecimento prático e disperso dos milhões de cidadãos que sustentam a economia real. O erro agrava-se com a “invasão epistémica” descrita por Nathan Ballantyne: figuras que acumulam prestígio num nicho laboratorial saltam para os ecrãs a ditar regras autoritárias sobre macroeconomia ou pedagogia, matérias cujos custos ignoram. E, desprovidos de skin in the game, transferem todo o custo dos seus erros para a sociedade, enquanto mantêm estatuto e remunerações intactos.

O sistema subsiste porque alimenta o conluio entre poder político e jornalismo. Os governos trocam a “política baseada em evidência” pelo “fabrico de evidência encomendada”, recrutando peritos para blindar decisões prévias. O ecossistema mediático, por sua vez, prefere os especialistas que Philip Tetlock classificou como ‘ouriços’ – assertivos e dogmáticos, ideais para soundbites dramáticos. Manchetes infundadas (como a suposta recomendação da Comissão Europeia para controlar rendas) são replicadas sem que ninguém consulte os relatórios originais. Quem ousa auditar as fontes é logo excomungado como “inimigo da ciência” ou da "verdade".

W. K. Clifford avisou que é sempre errado acreditar com base em evidência insuficiente. Com o custo de acesso à informação reduzido a zero, delegar o juízo crítico no primeiro porta-voz credenciado é demissão moral. A verdadeira ciência nunca viveu do culto de batinas institucionais, mas da contestação metódica e da falsificabilidade popperiana.

A democracia não pode ser degradada numa sala de espera onde cidadãos obedientes aguardam receitas técnicas de comités sem risco pessoal. Governar é fazer escolhas de valor, com consciência de que haverá sempre trade offs – e essa responsabilidade pertence aos eleitores, que hoje têm na mão um mundo de informação que só não usam por inércia; e aos seus representantes, que ainda menos desculpa têm para não decidir de forma informada.

Se estes últimos continuam sem conseguir assumir as tais escolhas de valor, não merecem governar – porque a democracia não é um laboratório de experiências sociais para executar o plano deste ou daquele "sábio", "clarividente" ou "grande líder"; é um pacto moral entre pessoas livres.

Diário de Notícias
www.dn.pt