Há 42 anos escrevemos um trabalho sobre comunicação e poder na informatização das organizações, para o Concurso de Acesso à categoria de assessor no Instituto de Informática do Ministério das Finanças. Já ali percebíamos algo que continua por resolver, ao constatarmos que a tecnologia não entra suavemente no Estado. Entra como um exército numa cidade estrangeira, tropeçando em resistências, em rotinas, em gente que prefere o incómodo que já conhece à promessa de um bem-estar que ainda não viu."Classifique com os dados que tem!" Esta foi a frase mais certeira, que foi dita há dias num fórum online de professores classificadores, por um supervisor confrontado com a resposta incompleta de um aluno.Essa frase resume bem o que se passou este mês com o EduQA e a sua plataforma de classificação dos Exames Nacionais. Provas cortadas ao digitalizar, folhas que nunca chegaram aos professores, respostas atribuídas a dois classificadores ao mesmo tempo, sem que nenhum soubesse, e contagens que a própria entidade admitiu por escrito poderem estar erradas. O prazo para entregar as notas, que devia fechar a 14 de julho, foi sendo empurrado dia após dia.E enquanto isto acontecia, o Governo escolheu precisamente estas semanas para apresentar, com toda a pompa e circunstância, o seu modelo de Inteligência Artificial "soberano", com cinco milhões e meio de euros do PRR. Ao mesmo tempo que centenas de professores continuavam de mãos atadas perante uma plataforma que nem sequer conseguia fazer chegar um documento inteiro a quem tinha de o avaliar.Charles Perrow escreveu uma frase que gostamos de recordar: "O prestígio é a maneira mais barata de adquirir poder." É exatamente isto que continua a acontecer nos organismos públicos, pois descuida-se a comunicação séria e investe-se no anúncio político. Não há imagem que mostre melhor essa distância do que um Estado a celebrar a soberania do seu futuro modelo de linguagem sem conseguir garantir que uma folha de resposta chegue completa ao professor que a vai corrigir.Chamávamos a isto, em 1984, "narcisismo comunicacional", ao se falar sem pensar em quem deveria receber a mensagem. Preferiu-se propagandear a reforma do Estado e recolher aplausos em conferências, em vez de falar com quem realmente sente a mudança na pele, neste caso, os alunos que esperaram pelas notas para se candidatarem ao Ensino Superior e os professores, tratados como peças anónimas e substituíveis num sistema onde ninguém sabe ao certo quem corrigiu o quê.Há também uma diferença que continua a valer a pena repetir, pois a mudança imposta é diferente da mudança construída em conjunto. Só esta última cria um sentimento de pertença capaz de vencer a resistência natural de qualquer organização perante o desconhecido. O que aconteceu com o EduQA foi o contrário, quando se lançou uma plataforma nova numa das operações mais sensíveis do calendário escolar, sem que se tenha visto qualquer trabalho sério de preparação e escuta prévia junto de quem a ia usar. Sem testes credíveis adequados à digitalização em massa. Sem plano B, a não ser pedir ao professor que avaliasse apenas o que via no ecrã, mesmo faltando metade da resposta. Isto não é inovação! É empurrar a responsabilidade para quem está mais desprotegido na cadeia do processo de avaliação.Fica ainda um aviso mais incómodo, inspirado em Henri Lefebvre e Norbert Wiener para falar do "cibernantropo", aquele ser que admira e teme a máquina precisamente porque ela não erra, não hesita e que acaba por querer, ele próprio funcionar, como uma máquina, envergonhado da sua humanidade imperfeita. "Classifique com os dados que tem" é uma ordem que se dá a um cibernantropo, não a um professor. É pedir-lhe que engula a dúvida legítima, que finja ver o que não vê, que se comporte como um algoritmo em vez de um ser humano a avaliar outro ser humano. Já avisávamos, em 1984, que a máquina é obra nossa e que não podemos deixar que se torne o nosso modelo de comportamento. Quando é o próprio sistema a empurrar as pessoas para esse papel, a inversão já está feita e quem a provoca não é a Inteligência Artificial, é a pressa política de mostrar resultados sem primeiro construir a confiança que os sustenta.Terminamos, como há 42 anos, com três palavras: viabilidade, visibilidade, valor. A viabilidade técnica nunca foi o problema, pois a tecnologia está aí e é banal. O que falhou foi a visibilidade dos sintomas antes da crise rebentar publicamente e, sobretudo, o valor que os professores, os alunos e as famílias conseguiram tirar de todo o processo, reduzido a incerteza, prazos adiados e pautas cheias da palavra "suspenso".Enquanto a reforma do Estado continuar a anunciar a Agêntica da IA, com a mesma pressa de imagem com que anunciou um modelo soberano ao lado de um sistema de classificação em colapso, vai continuar a repetir o erro que já denunciávamos: usar a tecnologia contra a sua própria natureza, perpetuando exatamente o modelo burocrático e impessoal que o Governo diz querer combater.Cada vez mais assistimos a uma reforma do Estado que se comporta como um rolo compressor, mais interessada em multiplicar cibernantropos obedientes às ordens de máquinas e de políticos do que em partilhar e construir, em conjunto, políticas públicas ao serviço do bem comum.