Flávio Bolsonaro começou por dizer que não conhecia Daniel Vorcaro. Mas a divulgação de telefonemas entre ambos revelou que não só o candidato presidencial de extrema-direita para as eleições de outubro conhecia o banqueiro corrupto, de quem Brasília foge a sete pés, como lhe pedira até a ninharia de 21 milhões de euros para financiar um filme sobre o pai.O filho de Jair Bolsonaro relativizou, sublinhando que se tratava de um mero contacto profissional com um eventual investidor. Mas a notícia de que visitara Vorcaro, a quem se referia por um informalíssimo mermão [meu irmão], já depois de o escândalo rebentar, e lhe prometera apoio para o que desse e viesse, demonstrou que a relação entre ambos era íntima.O candidato presidencial voltou a minimizar, explicando que a gíria mermão é muito comum no Rio de Janeiro e que a relação dele com o banqueiro corrupto não foi além disso. Mas agora foi revelado o definitivo “batom na cueca”, expressão brasileira para prova irrefutável: o escritório de advocacia de Flávio emitiu três faturas, no equivalente a 87 mil euros, para uma empresa ligada ao grupo empresarial do banqueiro que corrompeu meia Brasília.Ele diz que não, que chegou a ser consultado sobre a prestação de serviços, só que o contrato não foi adiante, razão pela qual as notas fiscais foram canceladas e nenhum pagamento recebido. Mas o Brasil, incluindo até a direção de campanha do filho do ex-presidente, já não sabe se acreditam.Desde 2018, com o famoso escândalo das rachadinhas, que volta e meia Flávio Bolsonaro aparece no radar da polícia. Entretanto, esse caso, que consistia no desvio dos salários de colaboradores-fantasma no gabinete da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para o próprio bolso, precipitou um segundo episódio suspeito envolvendo o hoje senador.Ainda antes da abertura da ação penal sobre as ditas rachadinhas, uma loja de chocolates de Flávio num centro comercial da Barra da Tijuca foi investigada pelo Ministério Público (MP), por, segundo os promotores, ter sido utilizada para lavar parte desses recursos desviados. Segundo o MP, pelo menos cerca de 87 mil euros teriam sido ocultados na compra da loja. E em torno de 274 mil, em depósitos feitos entre 2015 e 2018, seriam incompatíveis com a faturação do estabelecimento. Flávio negou as acusações e afirmou que a loja era legítima e lucrativa, mas, em 2021, ele e o sócio deixaram a operação da franquia.Entretanto, por um daqueles acasos em que a política do Brasil é fértil, a loja de chocolates carioca que abalou a reputação de paladino anticorrupção de Flávio Bolsonaro chama-se Kopenhagen.E a empresa brasiliense ligada ao escândalo de corrupção de Vorcaro, à qual o escritório de advocacia do candidato à Presidência a 4 de outubro emitiu faturas, é a Copenhagen Consultoria e Assessoria, SA.Há duas semanas, nesta mesma coluna, a célebre frase de Marcellus, o oficial do exército e guarda do castelo Elsinore na peça Hamlet, de Shakespeare, foi adaptada para “algo está podre no reino do Bolsonaristão”. Mas afinal parece que é na Dinamarca, mesmo.