O candidato da Turquia a secretário-geral da ONU poderá ajuda a corrigir uma expressão gramatical turca?

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

Publicado a: 

Existe em turco uma forma verbal do passado utilizada quando o falante não tem a certeza absoluta de que um acontecimento ocorreu realmente.

Esta forma transmite uma ideia de algo que se ouviu dizer ou de um boato: algo de que se teve conhecimento por terceiros, em vez de um facto que se possa garantir pessoalmente.

Por exemplo, em turco, a expressão “Nações Unidas” soa a algo como: “Ao que parece, uniram-se… mas não posso garantir pessoalmente que isso seja um facto!”

Esta anedota vem-me à memória numa altura em que os meios de comunicação social internacionais e turcos noticiam que a Turquia está a preparar um candidato ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas, sobretudo se se verificar um impasse na corrida à sucessão de António Guterres, cujo mandato termina a 31 de dezembro de 2026.

A antiga vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan, continua a liderar o grupo de sete candidatos, mas o seu apoio enfraqueceu ligeiramente, o que sugere que o impasse poderá persistir. Esta situação poderá levar outras figuras de topo a entrar na corrida, noticiou a Reuters.

Irá este organismo mundial “unir-se” em torno do candidato que, segundo as notícias, a Turquia pretende apresentar, o embaixador Feridun Sinirlioglu, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros que ocupa atualmente o cargo de secretário-geral da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE)?

Talvez a Turquia esteja a contar com as suas relações amistosas com os Estados Unidos.

O Conselho de Segurança tem primeiro de recomendar um candidato numa reunião à porta fechada e proceder à votação. Os seus cinco membros permanentes, entre os quais os Estados Unidos, podem vetar a recomendação.

Segundo noticiou o Politico, um meio de comunicação social internacional em linha, os Estados Unidos opõem-se alegadamente a todos os candidatos atuais, argumentando que nenhum deles está suficientemente alinhado com a visão do mundo do presidente Donald Trump ou com o seu desejo de introduzir mudanças radicais na organização.

Os diplomatas norte-americanos não excluíram a possibilidade de apoiar o diplomata búlgaro Nickolay Mladenov, que dirige o Conselho da Paz criado por Trump, noticiou o Politico.

A Turquia enfrenta, sem dúvida, vários obstáculos.

Entre os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança, a França mantém relações particularmente más com a Turquia. A China, a Rússia e o Reino Unido também teriam de ser convencidos.

Há ainda as relações complicadas da Turquia com a vizinha Grécia, que está a concluir o seu mandato como membro não-permanente do Conselho de Segurança.

Isto sem falar nas relações extremamente tensas da Turquia com Israel. A guerra de palavras entre o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tornou-se um acontecimento quotidiano.

No entanto, a cooperação diplomática e económica entre os dois países reforçou-se durante os cinco anos em que Sinirlioglu foi embaixador da Turquia em Israel, mandato que terminou em 2007. Erdogan, então primeiro-ministro, realizou uma visita oficial a Israel em 2005.

“Se a candidatura passar do plano das possibilidades para a realidade, é evidente que Sinirlioglu terá de superar um percurso de obstáculos extremamente exigente”, escreveu Sedat Ergin, experiente colunista turco especializado em assuntos diplomáticos, no jornal turco Oksijen.

A expectativa de que o próximo secretário-geral seja uma mulher não parece figurar entre as prioridades de Trump.

No entanto, no seu último discurso perante a Assembleia-Geral, Guterres destacou a importância da igualdade de género.

Afirmou que as Nações Unidas tinham “alcançado, pela primeira vez na história, a paridade de género em todos os cargos de direção de topo, em todas as sedes e entre todos os funcionários das categorias profissionais”.

“A igualdade não é um sonho. É uma decisão”, afirmou. “Se a ONU pode mudar, também o podem fazer as empresas, os parlamentos, os governos e os processos de paz.”

Diário de Notícias
www.dn.pt