O calor que nos consome

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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Não costumo perder as crónicas de Carmen Garcia no Público. Algumas semanas atrás, sugeria esta cronista a incompatibilidade dos calores extremos que atravessamos com o trabalho, a criação intelectual e a civilização.

Arnold Toynbee, um esquecido filósofo da História inglês do século XX, avançou uma teoria semelhante. Segundo ele, a civilização só emergia em condições climáticas não-extremas, nunca podendo, assim, terem existido fortes civilizações equatoriais, árticas ou antárticas.

O nosso conceito de civilização evoluiu alguma coisa com Lévi Strauss e a sua escola, e reconhecemos hoje um imaginário próprio e uma organização social, a que podemos e devemos chamar civilização, tanto aos esquimós (ou melhor, inuits), como aos autóctones do Amazonas ou da Nova Guiné. Tudo são modos de estruturação das sociedades, tudo são respostas humanas à natureza e às condições de vida que ela nos dita.

Depois da vaga de calor em Lisboa, o calor em Bruxelas pareceu-nos tão moderado como deve ser o de uma capital da Europa. Mas à medida que o dia avançava e que nos dávamos conta de não serem assim tão habituais os ares condicionados neste norte da Europa, austero ante todos os excessos, começámos a sentir os mesmos efeitos anticivilizacionais que Carmen Garcia e Arnold Toynbee denunciaram.

Pergunto-me por que razão as viagens a Itália, esse exemplo de grande cultura e civilização surgido nos calores do Sul, foram tão importantes para os estetas alemães, de Winckelmann a Goethe, como para os poetas ingleses, de Byron a Shelley e Keats, tanto para os renascentistas como para os românticos. Talvez o calor os ofendesse menos, cansados que vinham dos frios do Norte. Os estetas e os poetas não se escandalizavam com povos que gastavam o que tinham e o que não tinham com mulheres e vinho, e nem sequer acreditavam nessa lenda. Alguma coisa se perdeu?

Se formos aos países árabes (ou persas), ou mesmo ao Alentejo, aprenderemos como a construção das casas seguia regras e preceitos que diminuíam o calor e refrescavam o ambiente. Nunca tive tanto calor como em Inverness, na Escócia, onde cheguei durante uma vaga de altas temperaturas que transformara numa Copacabana as praias de Edimburgo, e onde o hotel, construído para resistir aos frios, nos sufocava com o seu ardor encerrado.

Da mesma maneira que antes nunca se passava tanto frio como no inverno em Lisboa, graças ao mito do clima ameno e da inutilidade de aquecer as casas, também o norte da Europa, pouco habituado ao calor, vai ter de mudar para enfrentar este aquecimento global, que afinal sempre existia, não era invenção de sábios loucos e de meninos radicalizados.

Os efeitos sobre a civilização deste aquecimento do planeta poderemos pensá-los mais ou menos penosos, conforme se aceitem ou não as teses de Carmen Garcia e de Arnold Toynbee. Por mim, um bom ar condicionado basta para me sustentar alguma vivacidade do espírito (se a tiver). Mas aqui em Bruxelas, capital de todas as Europas, a temperatura de 31º e a ausência de ar condicionado neste simpático apartamento em que estou alojado, condicionaram uma debilidade nestas minhas considerações, de que decerto os meus leitores se deram já conta.

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