Ontem, fui à Fundação Champalimaud para a Grande Conferência de Diário de Notícias. Ouvi pela primeira vez o nome dessa fundação há uns 10 anos, pois uma amiga com cancro foi tratada nela. Depois vieram sempre notícias sobre os seus êxitos no tratamento de cancros, sentindo-me envergonhada, porém, de dizer agora que ignorava o seu endereço.Para ir à Conferência realizada no seu auditório, consultei no mapa a sua localização com a imagem do prédio e tive a confirmação de um amigo: “Fica em Belém, depois da Torre”.“Como é que vais?”, perguntou-me o marido. “Hoje faz bom tempo e apetece-me ir de metro, seguido do elétrico 15 e andar um pouco, pois depois vou ficar sentada durante o dia todo. Na internet disseram que da paragem Pedrouços para a fundação é apenas um ou dois minutos a pé. Se acontecer algo imprevisto, poderei sempre apanhar no meio do caminho um táxi.” Dizendo isso, saí de casa por volta das 8 horas; de Areeiro para lá, calculava que uma hora era suficiente.De facto, a viagem correu bem, apesar de demorar algum tempo à espera do metro e sobretudo do elétrico. Saí da paragem Pedrouços antes das 9, hora prevista para iniciar a Conferência. Andei um ou dois minutos e vi o prédio na minha frente.Mas, para grande espanto meu, há uma divisão total que separa os dois sentidos da avenida, sem passagem superior nem passagem subterrânea que permite chegar ao outro lado. E não havia táxi a passar por ali nem peões a quem podia pedir informação. Para uma pessoa educada na China para chegar com cinco minutos antes da hora combinada, fiquei aflitíssima. Olhei e voltei a olhar à volta, sem saber o que ia fazer.Reparei então num carro parado perante o sinal vermelho numa rua pequena que formava um entroncamento com a avenida. Aproximei-me e ganhei a coragem para fazer um sinal ao senhor condutor. Ele baixou a janela e abri a boca: “Bom dia! Peço uma informação. O senhor sabe como é que posso passar para o outro lado?” “A senhora segue em frente para Algés podendo encontrar uma passagem.” “É muito longe?” “Uns 10 minutos a pé.” Meus Deus! 10 minutos para lá, atravessar a avenida e 10 minutos para cá, ía chegar atrasadíssima ao local. “O senhor pode levar-me para lá? Tenho de ir a uma conferência das 9 horas e estou atrasada. Posso pagar o seu serviço.” “Entre!”, respondeu o senhor.Entrei no carro e queria dar dinheiro ao senhor. “Não, não é preciso. Vou levá-la para lá. É rápido.” Ele arrancou o carro, fez uma manobra e dirigiu-se para a Torre de Belém. “Não é para Algés?”, perguntei. “Lá na Torre também podemos passar para outro lado. É rápido. Depois vou seguir em frente neste sentido.” “O senhor pode dar-me o seu contacto telefónico para eu poder mandar-lhe uma prenda?” “Não. Não é preciso. Estou só ajudar.” “E como se chama?” “Eduardo.” “Senhor Eduardo, mesmo e mesmo muito e muito obrigada!” Enquanto falávamos, ele parou o carro à entrada do auditório e disse: “Afinal, não passou muito das 9 horas.” E quando entrei no auditório, ainda era o discurso de boas-vindas!Lembrei-me inevitalmente uma outra experiência de há quase 20 anos, que contei no texto O que me impressionou, surpreendeu e sensibilizou em Portugal, integrado no livro Em bicos de pé e de olhos em bico, com coordenação de Jorge Tavares da Silva e Zélia Breda. Passo a transcrevê-la integralmente:“No inverno de 2008, numa noite fria em que chuviscava, eu e o meu marido saímos de uma aula e ficámos à espera de um táxi. Já passava das 22 horas; quase não havia ninguém na rua e o táxi demorava a chegar. Eu levava comigo numa mão um enorme ábaco de ensino, segurando com a outra mão o meu marido, visivelmente invisual com seus óculos escuros e bengala, à luz fraca da iluminação. No silêncio escuro, um jovem português passou ao nosso lado. Avançou uns dez metros e voltou para trás. Aproximou-se de nós e disse: “Boa noite! Aconteceu alguma coisa? Precisam de ajuda?” “Ah, não é preciso. Estamos à espera de táxi. Obrigada!”, respondi eu. O jovem afastou-se um pouco, mas não se foi embora. Entretanto, veio de longe um táxi com luz verde. Apressei-me a levantar o braço. O táxi parou e entrámos. O jovem ficou atento aos nossos movimentos e só depois de se ter assegurado que estávamos bem é que seguiu em frente. Observando pela janela da retaguarda do táxi o comportamento do jovem desconhecido, contei o episódio ao meu marido. Depois, ficámos os dois calados, durante toda a vigem, pois estávamos mesmo sensibilizados, comovidos e emocionados, e todas as palavras pareciam inúteis.”Nos primeiros anos após a minha chegada a Portugal, quando os compatriotas me perguntavam sobre Portugal, respondia que o clima era privilegiada. Passados alguns anos, o calor humano do povo português passou a ser a primeira resposta, seguida de clima privilegiado.O que passei ontem comprovou mais uma vez esse calor humano.