O calor humano do povo português

Wang Suoying

Prof.ª Auxiliar aposentada da Universidade de Aveiro e Presidente da Associação Portuguesa dos Amigos da Cultura Chinesa

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Ontem, fui à Fundação Champalimaud para a Grande Conferência de Diário de Notícias. Ouvi pela primeira vez o nome dessa fundação há uns 10 anos, pois uma amiga com cancro foi tratada nela. Depois vieram sempre notícias sobre os seus êxitos no tratamento de cancros, sentindo-me envergonhada, porém, de dizer agora que ignorava o seu endereço.

Para ir à Conferência realizada no seu auditório, consultei no mapa a sua localização com a imagem do prédio e tive a confirmação de um amigo: “Fica  em Belém, depois da Torre”.

“Como é que vais?”, perguntou-me o marido. “Hoje faz bom tempo e apetece-me ir de metro, seguido do elétrico 15 e andar um pouco, pois depois vou ficar sentada durante o dia todo. Na internet disseram que da paragem Pedrouços para a fundação é apenas um ou dois minutos a pé. Se acontecer algo imprevisto, poderei sempre apanhar no meio do caminho um táxi.” Dizendo isso, saí de casa por volta das 8 horas; de Areeiro para lá, calculava que uma hora era suficiente.

De facto, a viagem correu bem, apesar de demorar algum tempo à espera do metro e sobretudo do elétrico. Saí da paragem Pedrouços antes das 9, hora prevista para iniciar a Conferência. Andei um ou dois minutos e vi o prédio na minha frente.

Mas, para grande espanto meu, havia uma divisão total a separar os dois sentidos da avenida, sem passagem superior nem passagem subterrânea a permitir chegar ao outro lado. E não havia táxi a passar por ali nem peões a quem podia pedir informação. Para uma pessoa educada na China para chegar com cinco minutos antes da hora combinada, fiquei aflitíssima. Olhei e voltei a olhar à volta, sem saber o que ia fazer.

Reparei então num carro parado perante o sinal vermelho numa rua pequena que formava um entroncamento com a avenida. Aproximei-me e ganhei a coragem para fazer um sinal ao senhor condutor. Ele baixou a janela e abri a boca: “Bom dia! Peço uma informação. O senhor sabe como é que posso passar para o outro lado?” “A senhora segue em frente para Algés podendo encontrar uma passagem.” “É muito longe?” “Uns 10 minutos a pé.” Meus Deus! 10 minutos para lá, atravessar a avenida e 10 minutos para cá, ia chegar atrasadíssima ao local. “O senhor pode levar-me para lá? Tenho de ir a uma conferência das 9 horas e estou atrasada. Posso pagar o seu serviço.” “Entre!”, respondeu o senhor.

Entrei no carro e queria dar dinheiro ao senhor. “Não, não é preciso. Vou levá-la para lá. É rápido.” Ele arrancou o carro, fez uma manobra e dirigiu-se para a Torre de Belém. “Não é para Algés?”, perguntei. “Lá na Torre também podemos passar para outro lado. É rápido. Depois vou seguir em frente neste sentido.” “O senhor pode dar-me o seu contacto telefónico para eu poder mandar-lhe uma prenda?” “Não. Não é preciso. Estou só ajudar.” “E como se chama?” “Eduardo.” “Senhor Eduardo, mesmo e mesmo muito e muito obrigada!” Enquanto falávamos, ele parou o carro à entrada do auditório e disse: “Afinal, não passou muito das 9 horas.” E quando entrei no auditório, ainda era o discurso de boas-vindas!

Lembrei-me inevitalmente uma outra experiência de há quase 20 anos, que contei no texto O que me impressionou, surpreendeu e sensibilizou em Portugal, integrado no livro Em bicos de pé e de olhos em bico, com coordenação de Jorge Tavares da Silva e Zélia Breda. Passo a transcrevê-la integralmente:

“No inverno de 2008, numa noite fria em que chuviscava, eu e o meu marido saímos de uma aula e ficámos à espera de um táxi. Já passava das 22 horas; quase não havia ninguém na rua e o táxi demorava a chegar. Eu levava comigo numa mão um enorme ábaco de ensino, segurando com a outra mão o meu marido, visivelmente invisual com seus óculos escuros e bengala, à luz fraca da iluminação. No silêncio escuro, um jovem português passou ao nosso lado. Avançou uns dez metros e voltou para trás. Aproximou-se de nós e disse: “Boa noite! Aconteceu alguma coisa? Precisam de ajuda?” “Ah, não é preciso. Estamos à espera de táxi. Obrigada!”, respondi eu. O jovem afastou-se um pouco, mas não se foi embora. Entretanto, veio de longe um táxi com luz verde. Apressei-me a levantar o braço. O táxi parou e entrámos. O jovem ficou atento aos nossos movimentos e só depois de se ter assegurado que estávamos bem é que seguiu em frente. Observando pela janela da retaguarda do táxi o comportamento do jovem desconhecido, contei o episódio ao meu marido. Depois, ficámos os dois calados, durante toda a vigem, pois estávamos mesmo sensibilizados, comovidos e emocionados, e todas as palavras pareciam inúteis.”

Nos primeiros anos após a minha chegada a Portugal, quando os compatriotas me perguntavam sobre Portugal, respondia que o clima era privilegiado. Passados alguns anos, o calor humano do povo português passou a ser a primeira resposta, seguida de clima privilegiado.

O que passei ontem comprovou mais uma vez esse calor humano.   

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