Os recentes episódios de violência contra agentes da PSP, um no aeroporto e outro na Amadora, não são incidentes avulsos. São o sintoma de uma realidade mais funda: uma autoridade pública testada todos os dias no terreno por um Estado que lhe exige muito e lhe dá quase sempre pouco.Ser polícia em Portugal exige hoje uma forma particular de resistência. Aos riscos da função somam-se o desgaste acumulado, a escassez de meios e uma carreira insuficientemente valorizada. O resultado está à vista: dificuldade em reter efectivos, menor atractividade junto dos mais jovens e um problema de saúde mental que não pode continuar a ser tratado como tema periférico, como mostram as estatísticas de suicídio nas forças de segurança.No Comando Metropolitano de Lisboa, onde se concentra a responsabilidade operacional mais exigente do país, a falta de viaturas e a perda contínua de quadros tornaram-se quotidiano. Durante anos, opções adiadas em nome do equilíbrio orçamental foram pagas com a erosão da dignidade profissional.E, no entanto, a instituição não recuou. Desenvolveu um trabalho notável na investigação da pequena e média criminalidade, a que mais corrói o tecido social e reforça a sensação de insegurança. Assumiu, com a extinção do SEF, o controlo das fronteiras aéreas, respondendo com profissionalismo às debilidades de uma reforma mal amadurecida. Tutela os grandes centros urbanos, onde a densidade, a fricção quotidiana e a complexidade da criminalidade são maiores, e continuou apesar disso a ser tratada como força de segunda linha no investimento, sobretudo quando comparada com a GNR.A este desequilíbrio material junta-se um desequilíbrio de julgamento. O último relatório da IGAI regista um aumento expressivo das queixas contra as forças de segurança, com a PSP como a mais visada. Mas os mesmos dados mostram que os processos disciplinares instaurados atingiram o valor mais baixo dos últimos anos. A leitura é clara: multiplicam-se as queixas, não as infracções. Parte deste crescimento reflecte uma relação mais litigiosa do cidadão com a autoridade; outra parte, a instrumentalização da denúncia, em que a acusação de abuso ou de discriminação surge como recurso defensivo reflexo.Nem toda a queixa é infundada, e quando é justa deve ter consequências. Mas a banalização tem uma vítima dupla: o agente injustamente visado e quem sofre discriminação verdadeira, cuja voz se perde no ruído.A fiscalização externa é indispensável numa democracia. O que não é aceitável é que sirva de munição a quem deseja, no fundo, uma polícia com menos meios e menos autoridade. O exemplo é conhecido: o caso da Esquadra do Rato, um dos mais graves dos últimos anos, foi detectado e investigado pela própria PSP, mas continuará a ser brandido como estigma permanente contra a instituição que o expôs e puniu.Uma polícia que persegue os seus próprios desvios demonstra maturidade, não fragilidade. Há comportamentos que mancham o uniforme e não podem ser relativizados. Mas não podem ser eles a definir a imagem de milhares que cumprem.Defender a PSP não é um gesto corporativo nem um exercício de nostalgia da autoridade. É compreender que a legitimidade do Estado se joga na rua, na farda de quem o representa perante o cidadão. Um Estado digno desse nome não exige missão sem dar meios, nem pede disciplina sem oferecer respeito. Investimento, salários justos e reconhecimento não são favores. São a condição para que quem nos protege continue a poder fazê-lo. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico